"Rua!—gritou o moleiro correndo com força ambas as mãos pelo colete e pelos calções, donde saíu um nevoeiro de farinha.—Entre vossenhoria."
O prior entrou, e foi assentar-se n'uma tripeça que estava a um canto: Bartholomeu assentou-se sobre um sacco de trigo defronte delle. Os dous velhos mediram-se com os olhos por momentos, como se cada um delles tentasse ler no rosto do outro os pensamentos que lhes vagavam na alma. A primeira idéa que occorreu ao moleiro foi a de alguma festa que o parocho pretendia fazer, e para que lhe vinha pedir dinheiro. Batia-lhe o coração com violencia, e já imaginava trinta mentiras para evitar essa calamidade.
"Homem—disse por fim o prior—tenho em minha mão uma somma avultada; mais de quinhentos mil réis (o moleiro estendeu o pescoço); pertencem a um devoto, que os quer dar em dote a uma rapariga pobre desta freguezia. Encarreguei-me do negocio, e deitei as minhas linhas para dar no vinte. Mas temo não acertar, e venho bater comtigo. És honrado, meu Bartholomeu, posto que um tanto sovina: falo-te com o coração nas mãos, e…"
"Isso é o que dizem por ahi essas linguas perversas—interrompeu o moleiro, fazendo-se vermelho de colera;—essas mandrionas do soalheiro, porque lhes não metto no bandulho o meu remedio. Os diabos me levem…"
"Tá, ta!—acudiu o prior.—Ajustaremos contas na desobriga. Vamos agora ao que serve. Sem refolhos: a quem te parece que dêmos este dote? Parafusa lá."
O moleiro poz-se a scismar, alevantando os olhos para o tecto, estendendo e revirando a mandibula inferior, e batendo de quando em quando na testa.
"Nada … a Genoveva da Theresa não:—disse por fim.—Tal mãe, tal filha. Aquella está arrumada."
"Nem pensar n'isso é bom:—retrucou o prior.—Libera nos Domine.
Anda, vê se atinas."
"A Clara da Fonte tambem não…"
"Uhm!—rosnou o clerigo, abanando a cabeça.