"Então, se vossenhoria já tinha posto o dedo…"
"Tinha, tinha!—retrucou o prior:—Queria só ver se tu concordavas comigo: mas sacas-te com uma exquisitice de fazer arripiar. Não temos feito nada, meu Bartholomeu: não temos feito nada!"
E dizendo e fazendo, o clerigo erguia-se como para saír.
"Pois diga vossenhoria—acudiu o moleiro ainda atrapalhado com o revertere:—e enforcado morra eu se…"
"Não praguejes, homem! Ahi vae! Quem ha-de apanhar o dote é a
Bernardina d'ao pé do rio…"
A historia das saccas era espinha que ainda lhe estava atravessada na garganta: ouvindo tal nome, o velho não pôde conter-se:
"Quem? A cara de fuinha da filha de Perpetua Rosa? O padre prior está brincando. Olha as lesmas! Umas desmaseladas, e caloteiras! Isso, nas unhas da mãe, era fogo viste, linguiça. Terçans me matem…"
"Espera, homem, espera! Não é isso o que se diz na aldeia. Tu tens osga ás pobres mulheres, e cega-te a paixão. Desmaseladas?! Basta olhar para ellas; como andam limpas na sua miseria. Caloteiras? coitadínhas! É porque não têm com que pagar ao Agostinho da tenda? Pagar-lhe-hão agora. Quinhentos mil réis ainda ficam livres, e Bernardina ha-de com elles achar um bom casamento."
Emquanto o prior falava, uma idéa bem-aventurada illuminára subitamente a alma do moleiro. As suas tres saccas podiam não estar perdidas de todo; podiam voltar melhoradas ao moinho. Sentiu a colera desvanecer-se-lhe, como a nuvem negra que varre a brisa do norte.
"É verdade que a gente ás vezes tem cá as suas birras:—disse elle com certo ar que queria ser fino e saía parvo.—Cega-se com as pessoas! Vossenhoria bem sabe o que faz: dê o dote a quem quizer, que diante de mim ninguem ha-de tugir nem mugir contra vossenhoria."