"Olé. Escuta cá, Manuel!"—O Manuel aproximou-se.
"Depois d'amanhan é necessario que você se bote aos pés de seu pae, que lhe conte a boa obra que fez, e que lhe peça licença para casar com Bernardina…"
"Pelo amor de Deus, padre prior!"—interrompeu o triste do rapaz cheio de susto.—"Com os figados delle, põe-me os ossos n'um feixe."
"Não se perdia nada:"—acudiu o velho.—"Mas não é anno de fortuna. Era melhor que se tivesse lembrado a horas. Faça o que lhe digo, que não lhe ha-de succeder mal nenhum! Vamos."
"Se vossenhoria entende?!…"
"Entendo, sim, senhor. A paschoa não tarda; e passada a quaresma você ha-de receber-se. Mas d'isto nem palavra! E córte!"
O tom com que o parocho proferiu estas palavras deu uma alma nova ao Manuel da Ventosa. Imaginou logo que o padre prior tinha aplanado o negocio. Não sabia se risse ou se chorasse. Instinctivamente agarrou a mão do clerigo e beijou-a. A sua gratidão era sincera. O padre prior sentia palpitar esse vivo sentimento naquellas mãos callosas, que apertavam a sua mão enrugada, naquelles labios ardentes, que pareciam devora-la. Conheceu que estava arriscado a deslizar da habitual severidade, e, affastando-se rapidamente, bradou com voz aspera, mas alguma cousa trémula:—"Deixa-me, pateta! Deixa-me! … e Deus te alumie para que seja esta a ultima das tuas rapaziadas."
Fez bem em alongar-se: duas lagrymas lhe rolaram pelas faces abaixo.
Naquelle dia a tia Jeronyma chegou a desconfiar de que o padre prior tinha a bola desarranjada. Toda a manhan não fez senão cantarolar, ora um pedaço do Tantum ergo, logo um versiculo do Te Deum Laudamus, e assim por diante. Até andou por mais de meia hora a brincar com o gato do presbyterio. E, para resumir em poucas palavras a extravagancia de que parecia possuido, baste dizer que, ao descalçar-se, arrumou os çapatos para um canto, e depois de ter lido um capitulo da chronica de Cister, pela primeira vez da sua vida metteu na estante essa especie de Carlos-Magno monastico sem o pôr de pernas ao ar. Aquelle coração sentia dilatar-se na sancta paz do Senhor.
E porque não cabia o bom do padre na pelle? Porque tinha feito felizes duas creaturinhas, sacrificando-lhes as suas economias de quarenta annos. Elle achava isso uma cousa naturalissima; mas a providencia dava-lhe uma parte da sua recompensa nessa alegria suave e intima, que nunca pôde entrar nos palacios dos grandes e poderosos do mundo; porque é o premio, não do beneficio insolente da opulencia, mas sim da abnegação caridosa da humildade.