Celebra-se a festa de S. Pantaleão a vinte-sete de julho; data preciosa e averiguada por mim em largas vigilias, consumidas em revolver breviarios, antiphonarios, legendarios, missaes, sanctoraes, e livros historiaes, na phrase daquelle grande rhetorico Gomes Eannes. Está a folhinha pontualissima; podem acreditar-me! Celebrou-se, celebra-se e ha-de celebrar-se a festa de S. Pantaleão, o bemaventurado physico, todos os vinte-sete de julho, até a consummação dos seculos; salvo o caso de ninguem se lembrar d'aqui a cem ou duzentos annos de que existiu no mundo o meu rico sancto; mas espero tal não aconteça ficando lançada a sua memoria nestas paginas, ás quaes incontestavelmente pertence a immortalidade.
"Mas—acudirão os leitores—que nos importa a nós que essa commemoração seja a vinte-sete ou a vinte-oito: seja em julho ou em dezembro? Vamos á festa, e deixemo-nos de historias."—Devagar, devagar! É justamente porque isto é uma historia grave, sisuda, erudita, que eu não me havia de metter abrutadamente na narração, sem deixar averiguada, esmiuçada e fixada a data precisa e irrecusavel do meu recontamento. Sabem o que é uma data? Uma data é, depois de uma questão de orthographia, do talho e feitura de uma judia, a que os nossos velhos chamavam uma aljuba, e depois de um phalansterio, a que os dictos velhos chamariam uma sandice, a cousa mais importante que conheço neste valle de lagrymas. No caso presente, supponhamos que eu fosse um cabeça de vento, que atirasse com S. Pantaleão para vinte-sete de dezembro. Ficavamos aceiados; não tem duvida! Ahi se me ía metter a segunda oitava do Natal com o meu sancto martyr; e eu a querer revestir o padre prior para a missa cantada e a vêr-me doudo na escolha da vestimenta. Vermelho? Saltava-me a canzoada dos criticos:—Fóra ignorantão! Vermelho na segunda oitava da Natividade!? Vae ler o Claudio de Vert, alarve! vae ler o Campello, o Gavanto, o Lambertini."—Atarantado com a grita, atirava-me ao gavetão da vestimenta branca. Peior! Vinha-me outra surriada de sotavento:—Olha a alimaria! Não querem ver? A um martyr vestimenta branca! Hypocrita! que nos anda aqui a prégar sermões a favor dos padres e dos frades, e ainda não sabe qual é a sua vestimenta direita. Ahi tem os taes escrevedores d'agua doce, que se riem á socapa das arcadias, e das odes pindaricas, e da sciencia em notas, e das chronologias dos academicos. A gente que fazia essas cousas trazia as vestimentas na ponta da lingua: distinguia-as como hora horae de servus servi. Vae ler, oh taboa rasa de Locke, vae ler o Prado, o Clericato, o Bauldry, o…"
E eu, que não podia ir ler tanto calhamaço em folio, em quarto, em oitavo, e em doze, estacava, punha-me a gaguejar, perdia o fio da narrativa, e não proseguia nesta notavel historia do padre prior, a qual me abriria as portas do Instituto Historico de París, se eu fosse tão creança que me resolvesse a pagar não sei quantos francos por anno para gosar dessa incomparavel honra.
Por isto façam os leitores idéa das deploraveis consequencias de um erro de data!—"Porém—replicarão elles—quem te obrigava a tractares essa questão chronologica, superior talvez ás forças do teu entendimento? Não foste andando até aqui sem te metteres nesses debuxos? Porque não descreves a festa, deixando aos entendidos em calendario o pô-la na epocha propria?"—Bonissimos leitores, pensaes vós que eu sou o Manuel da Ventosa, que me deixe assim esmagar por uma saraivada de perguntas? Enganaes-vos! A resposta vae caír dos bicos desta penna como as frechas de Apollo longe-asseteador caíam no campo dos argivos, segundo resa Homero no capitulo primeiro da sua chronica das birras do Pelida e do Atrida: a minha tréplica vae tombar sobre os prelos convincente, irresistivel, irreplicavel. Ei-la. Finjamos por um momento que, em vez de consultar os respectivos auctores sobre a verdadeira casa de S. Pantaleão no taboleiro do calendario, nem sequer pensava nisso, e começava ex abrupto a scena da festa aldeian. Que succedia? Como estamos no inverno, e eu gósto do inverno, principalmente quando ruge uma boa nortada (são gostos), punha-me a descrever um destes formosos dias de dezembro ou de janeiro, em que o firmamento parece retincto de novo no seu tão lindo azul; em que a verdura infantil das searas á flor da terra sorri estirando-se dos topos arredondados dos outeiros pelo pendor de recostos levemente inclinados; em que a relva se mira á luz vermelha da aurora no espelho do caramelo, que envidraça a superficie dos pegos e remansos dos regatos. Falar-vos-hia de uma abençoada missa do gallo na aldeia em noite de luar, missa mil e quinhentas vezes mais poetica do que toda a poesia protestante desde Luthero, o pae do protestantismo, até Strauss, que hoje lhe tira as derradeiras consequencias; falar-vos-hia, emfim, de mil cousas, muito bonitas, muito viçosas, muito brilhantes, mas que viriam tanto a proposito de S. Pantaleão, como o anho paschal daquella sancta velha da tia Jeronyma viria a pello da Natividade com o seu caldo tradicional de perú, ou como o estylo do nosso drama moderno se casa com a linguagem da sociedade cujo transumpto deve ser. É por esta razão que em cousas serias, quaes a presente narrativa, eu sou muito pechoso em averiguar tudo quanto póde contribuir para a perfeição de obras em que a fórma de modo nenhum ha-de vencer a substancia:—e a essa classe pertencem estes estudos moraes.
Resolvida e assentada a questão de tempo e logar, sem o que não ha obra litteraria, segundo affirmam os glossadores e espivitadores daquella famosa embrulhada de Horacio chamada a Epistola aos Pisões, resta dizer alguma cousa ácerca de S. Pantaleão. Por muita importancia que eu ligue á feira, aos foguetes, aos buscapés, ás jarras de flores, aos tocheiros accesos, ao sacristão, á musica, aos festeiros, e ao padre prior, ligo muita mais á memoria daquelle cuja festa trazia n'um rodopio toda a aldeia, e até tivera a influencia magnetica de alargar os fechos da bolça ao veneravel moleiro Bartholomeu. Tenham, portanto, paciencia; que já agora hei-de dizer-lhes duas palavras ácerca do meu rico sancto. São reminiscencias do sermão, o qual, desde aqui fique sabido, foi feito e prégado por Fr. Timotheo, o fradalhão arrabido de mendicante e espoliada memoria. É pouco mais ou menos um resumo da historia do sancto como a contou Fr. Timotheo. Parece-me que o estou ouvindo!
S. Pantaleão era um medico de Nicomedia: o bispo Hermolau converteu-o ao christianismo. Desde então elle reduziu o seu receituario á invocação do nome do Senhor. Seguiram-se d'aqui duas consequencias graves: as suas curas foram mais baratas e mais rapidas, ao mesmo tempo que as offertas dos doentes escaceavam nos templos pagãos, e os sacerdotes de Esculapio começavam a morrer litteralmente de fome. O resultado foi um clamor geral contra o pobre sancto: os sacerdotes accusavam-n'o de impio e de bruxo, os medicos de charlatão. O odio contra elle chegou ao ultimo auge: só faltava uma occasião para a vingança: esta não tardou a apparecer.
"Não, que não havia de chegar!—rosnou o barbeiro, que, espécado em frente do pulpito, meneava a cabeça laudativamente de quando em quando, em honra da eloquencia de Fr. Timotheo, que, narrando a vida do sancto, esbravejava como um possesso.—Não, que não havia de chegar! Bastavam os medicos. Os medicos e os cirurgiões! Posto que até certo ponto pertença á faculdade, hei-de dize-lo: é a classe mais invejosa do merito, que eu conheço."
O barbeiro pensava assim havia muitos annos: desde que fôra cruelmente arranhado por tres raposas, que os lentes do Hospital lhe tinham largado ás pernas em um exame de sangrador. Boas ou más, eram as suas doutrinas.
Entretanto o arrabido continuava a lenda de S. Pantaleão: as idéas que della conservo são as seguintes:
Neste meio tempo veio a Nicomedia o imperador Maximiano. S. Pantaleão restituiu perante elle a um paralytico o uso dos membros, o que nem os sacerdotes pagãos, nem os medicos tinham podido fazer, mostrando assim quanto era poderoso o Deus dos nazarenos. Mostrar aos poderosos que se tem razão contra elles é o maior dos perigos do mundo. S. Pantaleão experimentou-o. Lançaram-n'o ás feras no circo: mas as feras, em vez de o devorar, vieram lamber-lhe os pés. Cresceu a colera do imperador. Mandou ata-lo a uma grande roda e solta-lo por uma ladeira abaixo; mas as prisões quebraram-se e o suppliciado ficou illeso. Então ordenou que o degolassem. O sancto, segundo parece, estava já saciado de prodigios: ao golpe do algoz a cabeça voou-lhe dos hombros, e a sua alma, subindo ao ceu, viu o proprio nome escripto no livro dos martyres. O inferno e a tyrannia tinham sido mais uma vez vencidos.