Tal reparo antevejo eu que me ha-de ser feito pelos pensadores da nossa terra, por estas ou por outras palavras. Respondo—o que escrevi escrevi. A primeira vez que puz os olhos naquelles bonitos versos do Child Harold, impei. Fui vivendo e lendo, e affiz-me ás injurias de estranhos. Livros, jornaes serramadeiras, jornaes populares, jornaes atoalhados, jornaes lençoes, em se tocando em Portugal, sancta Barbara, advogada dos trovões, nos acuda! Fervem as calumnias, os motejos, as accusações de todo o genero; o que inquestionavelmente é grande, é nobre, é generoso! O dar é assim!—n'uma nação cuja lingua, pouco conhecida na Europa, torna impossiveis as represalias. E se fosse a verdade só! Muitas verdades amargas nos poderiam dizer, como se podem dizer a todas as nações do mundo; mas a calumnia tem mais pilheria; e Portugal é um thema em que até os inglezes querem ter graça! Os francezes ainda alguma vez por engano nos fazem justiça: elles nunca. Em Inglaterra não ha nenhum tolo que não faça um livro de tourist, nenhum architolo que não o faça sobre Portugal: estes livros e os sermões constituem o grosso da sua litteratura[4]. Assim, oh philosopho idealista progressivo, eu sei tão bem como tu o que nos ha-de custar a festa de S. Pantaleão, quando esta famosa historia for caír nas mãos dos criticos d'alem-mar. Mas pensas que me faltará moeda para dar troco ás miserias de revisteiros, touristas, magazineiros, e fazedores de livros em sarapatel mascavado de normando e teutonico, surripiado por metade em cada palavra na melodiosa pronunciação britannica? Enganas-te, oh caricatura viva do Anthony morto! Enganas-te! Quando os inglezes se rirem de elles terem muito dinheiro e nós pouco, torçamos a orelha, e choremos como creanças pelas barbas abaixo. Quando elles compararem o Strand ou Regent-Street com os arruamentos da nossa cidade baixa, agachemo-nos. Quando perfilarem as suas estradas com as nossas azinhagas reaes, cubramos a cara. Mas quando compararem as venturas do homem de trabalho inglez com a triste sorte do peão portuguez, risada. Quando oppozerem as virtudes e illustrações das suas classes infimas á barbaria e estupidez das nossas, duas risadas. Quando encherem as bochechas das suas velhas liberdades (do tempo de Ricardo III, de Henrique VIII, de Isabel, de Cromwell e de Carlos II), das suas leis de propriedade em particular, e da clareza, simplicidade, e rectidão de todas as suas leis em geral, e nos atirarem á cara o absolutismo dos nossos antigos monarchas, a bruteza da nossa ordenação, a intolerancia dos inquisidores, trinta risadas. Quando, emfim, nos offerecerem em escambo das nossas crenças, dos nossos costumes religiosos, os seus costumes e a sua crença, que esborôa ha mais de dous seculos em quatrocentas crençasinhas, com seus nomes muito arrevesadinhos, quatrocentas risadas ou antes uma risada só, mas retumbante, macissa, inextinguivel, como aquellas famosas gargalhadas dos deuses de Homero. O caso é d'isso! Se caíssemos na troca ficavamos logrados. Traziam-nos de involta na carregação dos sermões domingueiros os dizimos e as bruxas, de que ha muito estamos livres pela misericordia divina, e que são os dous maiores flagellos da Inglaterra, depois da lei dos cereaes e dos arrendamentos das terras, que ahi alugam, até por semana, a dez milhões de esfaimados quatrocentos mil proprietarios gordos e anafados.

Ao menos são quatrocentas mil barrigas de uma amplidão respeitavel, campeando entre dez milhões de irmãos nossos, que não foram formados de barro, como nós e Adão, mas de massa insonsa de batatas.

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[1] Isto escrevia o nobre Lord em 1809, quando os inglezes reivindicavam dos francezes o throno de Beresford 1.º occupado pelo usurpador Junot 1.º—(Nota do gamenho que fala).

[2] Estylo epico em Inglaterra e na Cafraria.

[3] Poor paltry slaves!Pobre na livre Inglaterra é synonimo de desprezivel e vil, por isso traduzo assim.—(Nota do gamenho orador).

[4] Não me persuado de que nenhum leitor tome ao pé da letra este brinco litterario. A Inglaterra é uma grande nação, e possue no seu gremio muitos homens honestos, sabios, e por todos os modos respeitaveis. Mas a essa classe não pertencem por certo aquelles, que, propondo-se illustrar o povo, escrevem ácerca de uma pobre nação, que nunca os offendeu, toda a casta de absurdos e mentiras insulsas.

V

EXCURSO PATRIOTICO.

Falemos serio: não comtigo, philosopho esthetico-romantico-progressivo, que não vales a pena d'isso, mas com o povo portuguez, que fala portuguez chão e intelligivel. Falemos serio, porque estas materias de crença e de culto são cousas graves e sanctas. Saber resistir á violencia é forte, mas vulgar; saber resistir á calumnia e aos motejos é maior esforço e mais raro. Envergonhemo-nos do que houver mau e corrupto nos nossos costumes; envergonhemo-nos de muitas vezes não seguirmos na vida practica os dictames do christianismo: não nos envergonhemos, porém, do culto dos sete seculos da monarchia. A lingua e a religião são as duas cadeias de bronze, que unem no correr dos tempos as gerações passadas ás presentes; e estes laços que se prolongam através das eras são a patria. A patria não é a terra; não é o bosque, o rio, o valle, a montanha, a arvore, a bonina; são-no os affectos que esses objectos nos recordam na historia da vida: é a oração ensinada a balbuciar por nossa mãe, a lingua em que pela primeira vez ella nos disse:—"meu filho!"—A patria é o crucifixo com que nosso pae se abraçou moribundo, e com que nós nos abraçaremos tambem antes de ir dormir o grande somno, ao pé do que nos gerou, no cemiterio da mesma aldeia em que elle e nós nascemos. A patria é o complexo de familias enlaçadas entre si pelas recordações, pelas crenças, e até pelo sangue. Tomae, de feito, as duas dellas que vos parecerem mais estranhas, collocadas nas provincias mais oppostas de um paiz: examinae as relações de parentesco de uma com outra familia, quaes as desta com uma terceira, e assim por diante. Dessa primeira, que tão estranha vos pareceu á ultima, achareis um fio, enredado sim, talvez inextricavel, mas sem solução de continuidade. Uma nação não é só metaphoricamente uma grande familia: é-o tambem no rigor da palavra.