E que terá Fr. Narciso, que já escarrou duas vezes, já se assoou quatro, já bufou seis, já arregalou os olhos para o corpo da igreja oito? É que as attenções estão distrahidas. Fortes brutos! Uma perfeição de ceremonias, que nem na capella sixtina no dia da benção urbi et orbi!—"Olha o que lá vae! o que lá vae!—rosnava elle cheio de indignação.—Aquellas endiabradas… Quem vos decepára as linguas, tarameleiras! Até aqui! Louvado seja Deus! É de mais. Psiuhhhh!"
Tinha razão. Era um zum zum na igreja, que quasi galgava por cima das rebecas; e mais chiavam e desafinavam com alma. O arrastado psiuhhhh de Fr. Narciso restabeleceu, porém, a ordem, que nem n'um motim popular uma carga de cavallaria.
Mas para se restabelecer a ordem é necessario haver desordem. Quero vêr se tambem dizem os parvos que esta proposição é uma das minhas esquisitices, ou excentricidades, para lhes falar na sua algaravia. A cousa tinha saído do logar onde estavam a tia Jeronyma, Perpetua Rosa e a Bernardina. Qual cousa? Isso é o que não diz a historia. O que é certo é que era um bis bis que partia do centro para a circumferencia, como os circulos concentricos que encrespam a superficie do lago ao meio do qual se atirou uma pedra, e era ao mesmo tempo um balouçar de pontas de lenços sobre os cabeções dos capotes, um rir abafado, um sussurro, uma agitação entre o mulherío, tal, que attrahira a attenção e logo a colera de Fr. Narciso. O mais que se pôde perceber foram alguns fragmentos de dialogo entre a tia Jeronyma e a Engracia do Estanislau fogueteiro.
"Padre nosso que estaes nos céus:—dizia Engracia Ripa, deixando correr um dos bugalhos de umas contas da terra sancta que tinha nas mãos.—Ora essa!—Sanctificado seja o vosso nome.—Forte tractante!—Venha a nós o vosso reino.—E uma pessoa com a sua áquella de que era um home como se quer!—Seja feita a vossa vontade.—Safa!—Assim na terra como nos céus.—Com que então setenta?"
"Entregadinhas!—Ave Maria, gracia plena:—respondeu a tia Jeronyma, que latinisava furiosamente á força de viver com o prior.—Como lh'o hei-de dizer?—Domisteco.—Foi o demo que o tentou.—Benedités tu…"
Neste ponto a interessante conversação das duas matronas foi interrompida pelo psiu! raivoso de Fr. Narciso. Não podemos dizer sobre que ella versava, nem aonde iria dar comsigo: e quando n'uma chronica profunda e grave, como esta, faltam fundamentos plausiveis, é dever do chronista ser sobrio, ou antes abster-se de conjecturas. Direi só que ao saír a gente da festa, não havia cão nem gato que não soubesse tim-tim por tim-tim a historia do Manuel da Ventosa e da Bernardina.
Mais moralidade:—é o que elles tiraram das suas tolas tafularias.
Quando o prior saíu da igreja os rapazes desbarretavam-se, ainda com mais signaes de cortezia e respeito do que era costume; as raparigas affagavam-n'o com um sorrir e volver d'olhos affectuoso, que fazia scismar o bom do parocho. Todos olhavam para elle e falavam em voz baixa. O prior estava zangadissimo.
Mas qual foi o seu pasmo ao vêr chegarem-se a elle muitos velhos de cabeça branca (eram varios lavradores seus freguezes, hourados paes de familia) e beijarem-lhe a mão com os olhos arrasados de agua! Estava fumando. Uma onda se lhe ía outra se lhe vinha de destampar com tudo aquillo, e pregar uma descompostura solemne e por atacado nos velhos, nos rapazes, e nas raparigas.
E para isso não lhe faltava metralha. Mas lembrou-se de que era o dia do orago da aldeia, e teve mão em si. Só lá perguntava aos seus botões qual seria a causa deste destempero e doudice.