Miss Parker foi o unico folego vivo da Gran-Bretanha, a quem, na minha estada em Inglaterra, devi um beneficio: quando partimos para Jersey deu-nos um cabazinho em que levassemos a nossa matalotagem, e derramou algumas lagrymas ao despedir-se de nós. Aquelle cabazinho era o que estava ante mim, e me sustinha em cima dos joelhos a cabeça do velho. Sobre as vagas procellosas do canal da Mancha eu soldava assim as minhas contas com a Inglaterra.
O vento continuava a rodar para sudoeste, e os nossos dous marinheiros colheram parte do panno e mudaram algum tanto de rumo: depois tornaram a assentar-se na mesma postura em que estavam, e tudo voltou ao anterior silencio, que só era interrompido pelo marulho das ondas espalmando-se no costado do chasse-marée.
Mas um flagicio, mais abominavel ainda que os condimentos ferozes da cozinha ingleza, veio cortar atrozmente este silencio triste, que representava no meio de nós a previsão de imminente procella.
O inglez alto, de gesto esguio, e nariz hebraisante, tinha-se assentado ao pé do outro inglez affeiçoado pelo typo saxonico, no topo esquerdo da banqueta corrida á pôpa. Duas ou tres vezes, desde que levámos ferro, elle dirigiu ao companheiro uma rosnadura, a que este respondeu com o estirado monossyllabo Yes. Á quarta vez, aquella resposta laconica foi proferida com certa melopéa de resignação, que cortava os fios da alma, e acompanhada de um volver d'olhos azues, em que se pintava uma supplica de piedade. Mas o inglez aguçado carregou o sobr'olho, e, mettendo a mão ao seio, poz-se a procurar o que quer que era na algibeira interior de uma das quatro sobrecasacas que tinha vestidas. Eu observava esta scena; sabia o que póde o spleen, e o receio de algum anglicidio passou-me pela mente, ao contemplar o aspecto torvo de um e o gesto confrangido e timido de outro. O vento sibilava violento, as aguas começavam a tingir-se de negro, e o céu estava completamente toldado; era meio poema britannico. Um tiro de pistola e um cadaver baldeando no mar completariam uma epopéa. Nas feições do inglez esgrouviado parecia-me ler duas palavras—Spleen e Poeta—e por isso os meus temores não eram tão infundados, como, no primeiro momento, talvez os tenha julgado o leitor.
E o mais era que eu acertára farejando em Mr. Graham Senior (eram os dous inglezes irmãos, segundo depois soubemos) um fazedor das regrinhas, que na lingua ingleza correspondem ao que nas linguas do meio-dia é e se chama versos. O honrado Mr. Graham não procurava na algibeira o amago e substancia da idealidade e poesia britannicas, a pistola suicida. Não! Era cousa mais atrozmente assassina; era um quaderno grosso de letra microscopica, em que provavelmente se continham as suas inspirações ineditas! Estava explicada a longa taciturnidade dos dous. O perverso meditava aquelle fratricidio intellectual desde a partida de Saint-Hélier, e os quatro grunhidos abafados que lhe ouviramos tinham sido quatro tentativas para predispor a victima. De feito, quando elle sacou o alentado canhenho, Mr. Graham Junior parecia inteiramente resignado.
Aquelle atenazador das orelhas do proximo começou a sua leitura pela primeira pagina. Era um algoz de consciencia, e já se podia prever que tinha a boa tenção de atormentar-nos emquanto durasse o dia, que felizmente se inclinava a seu termo. Como me foi possivel, percebi aos trinta ou quarenta versos que era um poeta da eschola de Pope, ou como quem o dissesse entre nós, um poeta da Arcadia. Cá teria falado em Jove, Marte e Neptuno, nas musas, nos zagaes, nas nymphas, na tuba de Calliope, ou na sanfona não sei de que deusa: lá, nas inspirações de Mr. Graham, eram as paixões, os vicios, os affectos personalisados quem fazia o serviço dos seus poemas: aqui a esperança, alli o desalento; ora a temperança, logo a desenvoltura. Aquella poesia frigidissima fazia-me lembrar do Olympo, do Pindo e da Castalia dos nossos arcades, e de algum modo me consolava das miserias domesticas, ao vêr que a poesia cadaverica das fórmas e convenções não vivia unicamente entre nós, mas ainda ousava no canal da Mancha misturar as suas semsaborias academicas com o bramido terrivel do vento, e com o ferver estrepitoso das vagas, que entoavam accordes a sublime invocação da procella.
O poeta esguio declamava as suas regrinhas lentamente e com todos os requebros da melopea ingleza, genero de canto semelhante ao gemer rabugento de uma creança na primeira dentição. O pobre diabo, posto que provavelmente acreditasse que nenhum de nós o entendia, pensava por certo que, nova especie de Orpheu, bastavam os sons das suas palavras harmoniosas para nos arrebatarem e extasiarem, a nós selvagens da Europa, como com tanta graça e verdade denominam os escrevinhadores de John Bull os habitantes da Peninsula! Pensava assim, de certo; porque de quando em quando volvia para nós os olhos com aquelle sorriso de complacencia estupida, que é peculiar na cara de um inglez vaidoso e contente de si.
Um dos exemplos mais lamentaveis da cegueira do espirito humano é a persuasão em que os escriptores de Inglaterra estão de que possuem uma lingua litteraria falada; isto é, que os sons quasi inarticulados do seu chilrear e grunhir correspondem sufficientemente aos grupos de caractéres alphabeticos, de que elles se servem para representarem os proprios pensamentos. Todavia a lingua escripta de Inglaterra nada tem que ver com a linguagem em que a nação se exprime: são dous typos diversissimos, que dão fórma sensivel ao pensamento. Abri um livro escripto em qualquer outro idioma da Europa, e fazei ler por elle um estrangeiro completamente ignorante desse idioma: o natural do respectivo paiz, aquelle que o falou desde a infancia entenderá tudo ou quasi tudo, se escutar essa leitura. Fazei a mesma experiencia com um livro inglez: o natural de Inglaterra não entenderá provavelmente uma unica palavra. É que na realidade entre este povo, em tudo singular, os signaes chamados letras não tem um valor constante e determinado, e por isso não podem corresponder rigorosamente a um som.
A Inglaterra ha visto nascer no seu gremio grandes poetas. Shakspeare e Byron bastariam para lhe dar uma celebridade immensa. Mas a sua poesia reside toda no pensamento, na essencia da arte. As fórmas externas são rudes, barbaras, ou fluctuantes. Shakspeare e Byron foram dous selvagens, um porque estava além da civilisação, outro porque estava áquem della; mas foram talvez as duas almas mais sublimemente poeticas da Europa. Porque, pois, não souberam ajunctar a melodia material ás harmonias intimas das suas ideas? Foi porque não podiam converter em palavras humanas o intoleravel grasnido dos seus compatriotas.
Uma cousa que sempre me acontece em ouvindo falar um inglez é notar as mysteriosas analogias que ha constantemente entre a lingua de qualquer povo e os seus habitos de moralidade. Considerae por exemplo a lingua alleman: é um idioma perfeitamente accentuado; os vocabulos escriptos correspondem rigorosamente aos falados: não ha ahi luxo inutil de letras: todas se proferem; todas representam um som ou uma articulação. Os caractéres do alphabeto nunca serviram para enganar o estrangeiro. Não achaes n'isto uma expressão do animo leal, franco e singelo daquelle povo? A Deutsche Treue, a fé germanica, não se reflecte como em um espelho da lingua desse paiz? Agora escutae um inglez: dous terços de cada palavra, como a representam os signaes alphabeticos, não se proferem: devora-os o leitor: são uma armadilha para obrigar os labios peregrinos a darem syllabadas: o inglez pronuncia com os dentes cerrados, como se temesse que essas palavras-ouriços lhe fizessem, ao perpassarem, os labios em sangue. Não achaes n'isto um typo de cubiça e avareza? Um pensamento enganoso? O algodão tecido á sorrelfa com a lan? Não descubris lá o pensamento do tractado de Methuen, ou do desembarque de Quiberon? Não se revela no coaxar das rans de Wordsworth e dos poetas dos lameiros o British Interest?