Quando a victoria, embora sanguinolenta, nos coroava a fronte, o triumpho era para nós um delirio; porque o combate fora de homens valentes.

Na historia do soffrimento humano a mais bella pagina é a historia do nosso soffrimento. Nem a peste, nem a fome, nem a desesperação de todo o humano soccorro dobraram a robustez de corações ousados.

Porque pelejavamos por uma causa justa, e Deus estava comnosco.

Por serranias agrestes e aridas combatemos debaixo de sóes ardentes, e as entranhas mirravamse-nos de sede: tinhamos os labios resequidos como a urze já morta, e humedeciamo-los com as lagrymas da dor, e supportavamos a sede.

Encostados a mal construídos vallos e cercados por quarenta mil soldados, vigiavamos pelas noites longas e tenebrosas do inverno. A chuva cahia-nos em torrentes da atmosphera densa sobre os membros mal-vestidos, e o oeste sibillava em nossas armas.

Ou se as cataractas do céu se vedavam, o frio leste trazia-nos o seu sopro envolvido nas geadas dos montes penhascosos.

Cruelissimas eram estas entre as noites crueis desse tempo; porque ao redor de nós tudo estava devastado, e não havia um unico tronco para alimentar a fogueira do arraial.

E o frio recalcava a vida toda no coração do soldado; e elle sem um lamento soffria o rigor de noite dilatadissima.

A fome apresentou-se diante de nós: medonho era o seu aspecto: os membros desfalleciam-nos e as armas por vezes nos cahiam das mãos.

Mas o amor da patria estava vivo em todos os corações. A Providencia infundia-nos valor, e soffremos sem murmurar a fome.