Ajunctando aos titulos dos opusculos as datas em que foram escriptos, o auctor teve em mira habilitar o leitor para o julgar com justiça. Sem querer no minimo ponto fugir á responsabilidade das suas opiniões, entende que a responsabilidade será ora maior, ora menor, se porventura se attender á epocha em essas opiniões foram manifestadas. O decurso de trinta a quarenta annos, no turbilhão, cada vez mais rapido, em que hoje as idéas passam, modificando-se, transformando-se, é um periodo que corresponde a seculos nos tempos em que o progresso humano era sem comparação mais lento. As doutrinas, as apreciações criticas, os systemas, os livros quasi que envelhecem tão depressa como o homem. O pensamento que ha vinte annos parecia uma verdade nova póde hoje parecer apenas um problema não resolvido, e até um erro condemnado; a observação profunda de então ser hoje trivialidade; a critica subtil, que levou um raio de luz a certos recessos obscuros dos factos, achar-se incorporada e transfigurada em apreciação mais complexa que illumine dilatados horisontes. Por isso, a data de cada um dos opusculos contidos nos seguintes volumes é um dos elementos indispensaveis para estes serem avaliados com justiça e imparcialidade. Nem sempre fugimos á pressão das idéas que se manifestam ao redor de nós, e muito faz aquelle que algumas vezes sabe elevar-se acima das preoccupações ou dos interesses da epocha em que escreve.
Não se associarão a estas considerações, que sollicitam a indulgencia, algumas instigações do amor proprio? Suspeito que sim. Nos seguintes escriptos ha, em mais de um logar, idéas, previsões, affirmativas, negações que não raro grangeiaram para o auctor as qualificações de temerario, de paradoxal, de visionario. Em certos casos, o decurso do tempo encarregou-se de decidir de que lado estava ou a perspicacia ou a boa razão: em alguns, o paradoxo, a visão, foram-se lentamente insinuando em outros espiritos, e mais de uma vez o visionario primitivo veio a achar-se como sumido na turba de tardígrados visionarios. Que o facto não contribuisse para se datarem estes opusculos ninguem o acreditaria, nem eu pretendo negá-lo. Chamarão uns a isso orgulho: chamar-lhe-hão outros vaidade. E uns e outros terão razão. A vaidade e o orgulho que são, senão duas especies de um genero unico de fraquezas? O vaidoso é o que chama o mundo para espectador do seu orgulho: o orgulhoso é o que se colloca a si como unico espectador da propria vaidade. Symptomas varios de enfermidade identica: manifestações diversas de uma só miseria do coração humano.
A VOZ DO PROPHETA
1837
INTRODUCÇÃO
1867
Depois da epocha em que o seguinte opusculo foi publicado e dos factos que lhe deram origem, têem decorrido mais de trinta annos. Os homens que intervieram nesses factos dormem já, pela maior parte, debaixo da terra. Com raras excepções, restam apenas alguns dos que eram mais moços. O auctor da Voz do Propheta pertence a esse numero. Contava vinte e seis annos naquelle tempo.
O homem de hoje póde julgar imparcialmente o escripto do homem de então. O animo tranquillo póde avaliar a paixão que o inspirou. Aquelles a quem esse verbo ardente feria viram no auctor um partidario que friamente calculava os resultados politicos das suas palavras. Injustiça ou erro; o mesmo que havia da parte delle em ver nos homens que forcejavam por dirigir a revolta de 1836, por fazer sair desse facto um governo regular, grandes criminosos. A verdade era que, n'uns davam-se ambições, mas ambições talvez nobres; n'outros houve, de certo, o sacrificio das proprias sympathias, o silencio imposto ás proprias convicções, para que a revolta não degenerasse em anarchia. Em muitos desses individuos, apparentemente revolucionarios, havia o patriotismo reflexivo, e até a abnegação, emquanto em nós, os que os aggrediamos com a sinceridade da indignação, havia, por amor exagerado aos bons principios, uma colera que em muitas cousas offuscava a razão. A Voz do Propheta representa esse estado dos espiritos.
Hoje a exageração sincera do insulto, a invectiva hyperbolica, inspirada, não pelo calculo, mas pelas irritações da consciencia, mal se comprehende. Neste crepusculo da vida publica, tão favoravel ás prostituições do cidadão, como o crepusculo do dia ás prostituições da mulher; nesta epocha de extrema agonia, iniciada pela proclamação dos interesses materiaes acima de tudo, fórmula decente de sanctificar o egoismo, porque para cada individuo o interesse material alheio é apenas um interesse de ordem moral; agora que a boa educação dos homens novos mudou a linguagem politica, e vai arrojando para os archaismos historicos a lucta face a face, a punhalada pelos peitos; agora que a strychnina da allusão calumniosa e amena, o enredo tortuoso, a traição ridente vão expulsando da arena das facções as objurgatorias, rudes na substancia e na fórma, a Voz do Propheta é, sem duvida, uma composição agreste e brutal. Inutil como exemplo e modelo, servirá todavia como amostra do que eram as malevolencias da geração cujos raros representantes, hoje quasi estrangeiros no seu paiz, não tardarão a ir esconder no tumulo as ultimas grosserias que deturpam a suavidade dos costumes e as tolerancias de toda a especie dos cultos filhos de barbaros.
Os homens que em 1837 se aggrediam violentamente na imprensa e no campo tinham, de feito, habitos e sentir diversos dos actuaes. As febres politicas eram então ardentes, indomaveis, porque derivavam de crenças. Naquella epocha havia, como houve sempre, belforinheiros da politica; mas constituiam a excepção. O geral era gente baptisada com fogo e com sangue nas duas religiões inimigas do absolutismo e do liberalismo. Chamo-lhes religiões, porque o eram. A guerra civil, que terminara em 1834, tivera muitos dos caracteres das antigas cruzadas. Sobretudo nos primeiros impetos della, haviam-se practicado actos de abnegação, de constancia, de valor e de soffrimento sobrehumanos, ao passo que se perpetravam outros de bruteza e ferocidade inauditas. A maior parte delles, factos obscuros, individuaes, reiterados cada dia, cada hora daquelle prolongado paroxismo de grandiosa barbaria, não os registou, não os registará nunca a historia, talvez. E todavia, é isso que explica a proceridade da estatura moral dos homens daquelle tempo, estatura a que não chegaram, nem provavelmente chegarão as gerações subsequentes. Sem paixões violentas e exclusivas, não ha as energias que assombram. Então a existencia e os commodos e gosos della eram tão casuaes e transitorios, as privações e dores de tão completa vulgaridade, que dar a vida ou tirá-la aos outros pouco mais significavam do que acções indifferentes. Diante do fanatismo politico, a reflexão que discrimina o bom do mau, o justo do injusto, quasi que era puerilidade. Podia ceder-se, e não raro cedia-se, a instinctos generosos para com o adversario: a justiça em apreciá-lo moralmente, ou em respeitar-lhe os direitos, isso é que se tornara difficil.