Depois, nas proprias relações politicas, o espirito humano não se dirige unicamente pela reflexão. As paixões e affectos modificam e alteram as suggestões do raciocinio; porque o homem imprime necessariamente em todos os actos da vida as condições do seu ser. A favor da manutenção da Carta não militava só a boa-razão; militavam affectos, e affectos profundos. A Carta havia sido o grito de guerra do campo liberal em lide de um contra dez. Havia sido, digamos assim, a traducção moderna do Sanctiago! de Affonso I, do S. Jorge! do Mestre d'Aviz. Nas reminiscencias indeleveis de muitos de então, (bem poucos hoje) estavam ainda os vivas á Carta proferidos por labios que iam cerrar-se na morte, quando as bayonetas inimigas desciam inexoraveis sobre o peito ou sobre o ventre dos nossos soldados feridos e derribados[1]. Em nome da Carta se tinha desfeito o triangulo fatal do patibulo, e quebrado o ferrolho da masmorra e da enxovia, em nome della se tinham aberto para os foragidos as portas da patria que davam para os desertos do desterro, do desterro que é sempre solidão e desventura. A Carta fora como a estrella polar da esperança nos dias, tão longos, da fome, da nudez, das tempestades, do desalento. Vivia depois como envolta na saudade desses dias, acre e quasi dolorosa saudade, que nós os velhos ainda sentimos, mas que será provavelmente uma cousa inintelligivel para as gerações novas.
A razão, pois, e o sentimento falavam a muitos energicamente em favor das instituições annulladas. Falavam tambem a favor dellas a consciencia e a dignidade humanas. Tinham jurado manter essas instituições milhares e milhares de homens; milhares e milhares de homens as tinham nobremente mantido com o sangue, com as privações, com a resignação illimitada no sacrificio. Podem valer pouco os juramentos politicos; póde, até, ser absurdo o juramento em geral. Mas a quebra de promessas solemnes e espontaneas, seja qual for a sua formula, será sempre uma villania emquanto tiverem culto a honra e a lealdade.
Taes eram os principaes incentivos que induziam grande numero de liberaes a constituirem um partido hostil á nova ordem de cousas. A denominação de cartista, que esse partido adoptou, não correspondia rigorosamente ás causas da sua existencia, nem aos seus intuitos ou á sua indole. Mas representava até certo ponto isso tudo, ao mesmo tempo que era conciso, e facilmente comprehensivel para o vulgo. O cartista não reputava todas as instituições, todos os preceitos da Carta como a mais alta manifestação da sabedoria humana. Nesta parte os liberaes eram em geral eclecticos. Tanto o partido da revolução, como o anti-revolucionario nenhum tinha em si unidade completa de principios; nem entre um e outro havia senão antinomias parciaes quanto ás doutrinas de direito politico. No primeiro, que tomava por base das ulteriores reformas uma constituição democratica, exagerada até o despotismo das turbas, havia individuos para quem, como o tempo mostrou, as theorias da democracia ainda mais moderada eram altamente odiosas, ao passo que outros forcejavam por chegar, senão á republica, ao menos a instituições republicanas. No partido cartista dava-se o mesmo phenomeno. Todas as modificações do governo representativo tinham ahi fautores; tinham-nos, talvez, até, as doutrinas do absolutismo illustrado. A meu ver, a distincção profunda e precisa entre o cartismo e o septembrismo consistia em negar o primeiro o principio da revolução, dentro das instituições representativas livre e solemnemente adoptadas ou acceitas pelo paiz, e em affirmá-lo o segundo. Tudo o mais em ambos os campos era fluctuante e vago.
É essa a explicação de um facto que os homens daquelle tempo poderão testemunhar recorrendo ás proprias reminiscencias. Alistaram-se nas fileiras cartistas talvez mais individuos que haviam sido adversos aos ministros derribados, do que amigos e parciaes seus, ao passo que alguns destes abraçavam sem hesitar a revolução. De uns e de outros se deve crer que preferiam nobremente as suas opiniões aos seus interesses, ás suas affeições ou inimizades pessoaes. Para muitas dessas opiniões havia logar em ambas as parcialidades. Os que, porém, só attendiam á moralidade e cordura dos actos de administração ordinaria, lançavam-se, por via de regra, na revolução; os que, sem desattender taes questões, sem approvarem corrupções ou iniquidades a que eram extranhos e que tinham condemnado, remontavam a mais elevadas considerações de ordem moral e politica, abraçavam o cartismo. Não falo dos especuladores que se resolviam conforme as vantagens que se lhes antolhavam n'um ou n'outro campo. O proceder destes taes tinha na consciencia publica então, como depois, como sempre, uma qualificação conhecida.
Mas, dir-se-ha, como nessa epocha se disse, que entre o cartismo e o septembrismo se dava uma distincção mais radical e profunda. A Carta, outorgada por D. Pedro IV, representava o direito divino dos reis; era uma concessão de senhor, em vez de um pacto social, ao passo que a constituição de 1822, derivada da soberania popular, era a consagração das doutrinas democraticas. Considerada a esta luz, a revolução adquiria as proporções de um facto gravissimo, porque assentava a liberdade em novos fundamentos, e vinha a ser um passo gigante dado na estrada do progresso politico.
Na epocha, quasi exclusivamente liberal, em que se passavam aquelles successos, a resposta do cartismo a estas allegacões parecia facil. Não sei se o seria agora; agora que se tem achado e demonstrado, segundo parece, não prestar para nada o liberalismo. As intelligencias vigorosas da mocidade hodierna têem aberto caminho a theorias ou novas ou rejuvenescidas que nós os velhos de hoje e moços de então ou ignoravamos ou suppunhamos estereis, e talvez pueris, e de que sorriamos, quando alguns engenhos que reputavamos tão brilhantes como superficiaes, buscavam, evangelisando-as, jungir por meio dellas as turbas, más porque ignorantes, odientas porque invejosas, espoliadoras porque miseraveis, ao carro das proprias ambições. A questão da soberania popular não era precisamente o que preoccupava mais os entendimentos, cultos, mas tardos, daquelle tempo, e a democracia não apaixonava demasiado os animos, sobretudo os animos dos que haviam pelejado desde os Açores até Evoramonte as batalhas da liberdade, ou padecido na patria durante cinco annos, sem o refrigerio sequer de um gemido tolerado, as orgias do despotismo. Uns tinham visto de perto a face da democracia; tinham-na visto por entre a selva de oitenta mil baionetas que fora preciso quebrar-lhe nas mãos para a liberdade triumphar; tinham-na visto nas chapadas e pendores das collinas que circumdam o Porto, até onde os olhos podem enxergar, alvejando-lhe nos hombros os cem mil embornaes preparados para recolher os despojos da cidade da Virgem, da cidade maldicta, rendida e posta a sacco; outros haviam-na visto de machado e de cutello em punho, mutilando e assassinando prisioneiros inermes e agrilhoados. O liberalismo achara a catadura da democracia pouco sympathica. Restava a soberania popular. Essa funccionara durante cinco annos e dera mostra de si. A soberania do direito divino, repartindo com ella o supremo poder, provava que não era tão ignorante como a faziam. Tinha litteratura. Applicava, modificando-o, o verso:
Divisum imperium cum plebe Caesar habet.
As classes inferiores constituiam então, como hoje, como hão de constituir sempre, a maioria do paiz, e foi a esta maioria que ella entregou os direitos que cedia. Era a legitimidade consagrando outra legitimidade. Amavam-se, comprehendiam-se ambas. É que entre as extremidades ha contacto ás vezes. A democracia americana cuida ter inventado a lei do Linch. Puro plagio. Inventou-a em Portugal a soberania popular. Havia uma differença. Na America a plebe prende, julga, condemna á morte e executa; em Portugal o direito divino reservara para si o tribunal excepcional e o privilegio do cadafalso. Modesta no exercicio do supremo poder, a soberania popular limitou-se á prisão, ao espancamento, á multa, elevada, quando occorria, até o confisco. Se o incendio, o estupro, o assassinio se ingeriam ás vezes nesses actos judiciaes, era por simples casualidade. Manchas, tem-nas o sol. O mercador, o artista, o industrial, o professor, o proprietario urbano e o rural, o homem de letras, o cultivador, o capitalista, todas as desigualdades sociaes, todos esses attentados vivos contra a perfeita igualdade democratica conservaram por muito tempo dolorosas lembranças do amplexo das duas soberanias.
O liberalismo, que durante a contenda fora um pouco aspero para com a democracia, mais de uma vez tambem, empregara sacrilegamente a prancha do sabre e a coronha da espingarda para cohibir o excesso de zêlo administrativo e judicial da soberania popular. A brutalidade do liberalismo obrigara esta a abdicar após a abdicação da soberania de direito divino. Os dogmas, pois, em que se estribava a constituição de 1822, e contra os quaes protestava a historia, ainda palpitante, dos ultimos annos, eram inefficazes, porque os tornava impotentes a heterodoxia das consciencias. Duvido de que nesses rudes tempos de positivismo liberal elles obtivessem uma só conversão sincera.
O amor do real e do evidente era um dos grandes defeitos dos homens de então. O cartismo argumentava: «Que nos importa, dizia, d'onde veio a Carta? A questão é se ella consagra a liberdade humana e a cérca de garantias. É deficiente? É defeituosa? Esperemos que a razão publica, a torrente da opinião force os poderes do estado a completá-la, a corrigi-la. A opinião illustrada largamente preponderante é irresistivel nos governos livres. O que não é irresistivel é a opinião de alguns ou de muitos que benevolamente se encarregam de interpretar pelo proprio voto o voto commum, o voto dos que têem capacidade para o dar.—«Não se reputaria louco, accrescentava o cartismo, o representante de uma familia outr'ora opulenta, mas reduzida á miseria por espoliação remota, que, ao vir, por impulso espontaneo, o descendente do espoliador restituir-lhe os bens extorquidos, repellisse aquelle acto de nobreza e virtude, achando desar recuperá-los pacificamente? E se tal desar existiu; se a outorga da Carta e a tacita acceitação do paiz não podiam, aos olhos da metaphysica politica, elevá-la á altura de um pacto social, os immensos sacrificios que o restaurá-la, depois de abolida, custou á parte mais illustrada, mais rica, mais activa e laboriosa da nação, ás forças vivas da sociedade, e as torrentes de sangue e de lagrymas que serviram de sacro encausto á assignatura do paiz não valeriam bem o plebiscito da maioria inintelligente, o plebiscito daquellas classes inferiores que pelejaram até o ultimo extremo, senão com valor, de certo com ferocidade, para conservar essa monstruosa e horrivel soberania que a servidão lhes trouxera?