Certo dia, o conde de Avranches entrava nos paços de Affonso quinto, e os cortesãos calumniavam sem pudor o bom duque de Coimbra, o salvador da republica.
E o conde disse-lhes:—mentis, como desleaes; e aos melhores tres de vós prova-lo-hei á lança e á espada: innocente e justo é o mui nobre filho de meu senhor e rei, Dom João de excellente memoria.
E ninguem ousou responder ao velho cavalleiro da Garrotéa; porque bem sabiam que a sua consciencia era pura e o seu montante pesado.
D'ahi a alguns dias elle provou o dicto. Na batalha de Alfarrobeira, sobre um montão de cadaveres, cahiu defendendo a innocencia e bom nome do seu desventurado amigo.
Onde estavam os do valente capitão da nova Diu, do rei soldado da patria, quando o vulgacho no meio da praça publica, assentado no seu lodaçal mandava derrocar as leis, as recordações e a gloria d'uma nação inteira?
Onde estavam os amigos de D. Pedro, quando a memoria do grande homem era amaldicçoada na condemnação da sua obra; quando sobre as suas cinzas a dissolução cuspia escarneos; quando a liberdade morria ás mãos da licença popular?
Quem se ergueu, seguro em boa consciencia, para lançar a luva em defesa da justiça, e dizer ás turbas:—sois desleaes e mentis?
Ninguem! Todas as espadas ficaram embainhadas. Em Portugal já não ha um cavalleiro. Na batalha de Alfarrobeira morreu o conde de Avranches, e a sua espada foi sepultada com elle.
VIII
Quando os reis se assentavam em thronos de ferro; quando a lisonja os rodeiava de prestigios, e o terror estava assentado ás portas dos seus palacios, era bello e generoso affrontar-se o homem com a tyrannia e menoscabar as dores dos supplicios.