Mas que ha commum entre isto e as congregações modernas, que se organisam pelo ideal do despotismo, e que, regidas por esse principio, tão odioso e brutal como energico, penetram no amago da sociedade como o ferro do machado no cerne do roble? Quando ellas pedirem ao povo o coração da mulher para o dirigir, e a debil intelligencia da infancia para a affeiçoar, o povo, se não for insensato, há-de forçosamente replicar-lhes:—«Para que pedis isso? Vindes do despotismo: não podeis senão arrastá-los para o despotismo; para o despotismo na igreja, e para o despotismo no estado.»

A introducção das irmãs de caridade francesas não é senão o prodromo do restabelecimento das congregações, que, longe de buscarem os ermos, só tem em mira apoderar-se da sociedade. A reacção sabe que ás vezes é melhor ir de roda para chegar mais depressa.

N'um documento official allegaram-se os serviços das irmãs de caridade francesas no Oriente, principalmente nos arraiaes da Criméa, para legitimar a admissão daquelle instituto no reino, quando o principal fim ostensivo dessa admissão era o gravissimo negocio de educação da infancia. Vinha a ser a melhor allegação, sendo pessima. Naquelle documento dimittia-se a logica; e convertia-se a enfermaria em eschola normal. A reacção, tão astuta de ordinario, tem suas puerilidades. A capacidade das irmãs de caridade francesas para o magisterio talvez ainda venha a inserir-se como dogma no catecismo. Por emquanto está sujeito á discussão. A regra de S. Vicente de Paulo não encerra em si a demonstração de tal capacidade, e os factos ainda tambem não a demonstraram. Ensinar não é synonimo de ensinar bem. Permittam-nos, pois, que entretanto duvidemos da virtude pedagogica dessa regra, virtude que seria mais um milagre dos officiaes deste genero de producto, porque não resulta de nenhuma das sua disposições positivas. A caridade poderá, talvez, só por si fazer uma boa enfermeira; o que de certo não faz é uma boa mestra.

O instituto das irmãs de caridade cerca-se de uma auréola facticia, porque é um instrumento de reacção. Admitti que a dedicação, aliás louvavel, dessas mulheres seja um titulo que suppra a sciencia, que inutilise a intervenção do estado na educação, e diante do qual devam ceder os principios, as leis, os regulamentos, e achar-vos-heis em breve nas regiões do jesuitismo. Que vale a historia, mais ou menos exaggerada, dos sacrificios, do zelo, da constancia das irmãs de caridade ao lado dos sacrificios, do zelo, da constancia dos jesuitas, não neste ou naquelle paiz da Europa, mas no mundo conhecido? Depois, o jesuitismo tem titulos de sciencia bem diversos do que podem invocar as irmãs de caridade e a ordem que as dirige. Entregae, portanto, a educação e a instrucção, não só da puericia, mas tambem da mocidade, á companhia de Jesus.

Lá chegaremos, se não estivermos precavidos contra os sophistas.

O furor dimissorio da reacção não pára, nem na historia, nem na jerarchia christã, nem nos canones da logica: vai até a Providencia e até o Evangelho. Que ha particular e exclusivo na regra de S. Vicente de Paulo para produzir os resultados beneficos daquella associação como está constituida em França? A força impulsiva da vontade absoluta de um só homem é na verdade um elemento efficaz, postoque vulgar. O despotismo produz ás vezes o bem, aindaque em regra só produza males. Mas os effeitos dessa organisação, innegavelmente poderosa, acabam ahi. O resto operam-no a indole da mulher e a luz immortal do Evangelho. Quem ha que não visse, ao menos alguma vez, na obscuridade da vida domestica, uma irmã de caridade assentada á beira do leito da dor ou da ultima agonia? Onde está a mulher está a irmã de caridade. O seu espirito adeja em volta do padecer humano, para se precipitar nelle, como a mariposa á roda da luz. É o seu instincto, a sua indole, o seu destino. O amor, a amizade, a affeição filial ou fraterna, a maternidade escondem aos olhos dos outros e a seus proprios olhos as tendencias irresistiveis que a arrastam para levar um affecto aonde quer que sôa um gemido. Acima de todos os votos que se lhe podem ou pedir ou impor em nome do céu, ella tem dous, escriptos lá dentro, que a seguem do berço ao tumulo, a piedade e a paixão do sacrificio. Impellidas pelo sentimento religioso, essas tendencias vão até o sublime da abnegação: vão mais longe do que a irmã de caridade; vão até a mulher que se precipita na fogueira dos funeraes do Indostão. Essa mulher, como a irmã de caridade na Europa, representa a suprema devoção pelo sacrificio. A differença, porém, não está na regra de S. Vicente de Paulo: está em que na Europa a mulher educa-se á luz esplendida do Evangelho; no Indostão ao crepusculo triste dos Védas.

Sem a sujeição aos lazaristas, o que a regra de S. Vicente de Paulo póde fazer é dar unidade e ordem aos admiraveis instinctos da mulher sanctificados pela religião; é estender o que ha mais bello no mundo, as consolações do affecto domestico juncto de um leito de dores, aos que não tem familia que lhas possa dar, ou aos que a miseria e a doença entregaram á caridade official. Mas attribuir á virtude do instituto o que principalmente provém da natureza e da religião, é depôr a Providencia e o Christianismo para enthronisar um homem: é suppor que a sua obra vale mais que a obra de Deus: é a blasphemia da superstição.

Com o predominio, porém, do lazarismo; com uma obediencia cega a individuos que abnegam, diante de um chefe supremo, a vontade, a razão e a consciencia, as irmãs de caridade não são senão mais um perigo para a sociedade debaixo de apparencias illusorias. O bem que ainda assim fazem nem remotamente compensa os males que podem produzir. Instrumentos, provavelmente inscientes, do ultramontanismo, são como os maus actores, que se limitam a estudar o respectivo papel, sem conhecerem nem o enredo, nem os effeitos do drama.

Os serviços feitos á humanidade na guerra do Oriente pelas irmãs de caridade francesas, texto fecundo das pareneses da imprensa reaccionaria, e que tão pouco a proposito figuram em documentos que deveriam ser graves, tem acaso o valor e a significação que se lhes attribue? A guerra do Oriente foi emprehendida por duas das mais poderosas nações, uma d'ellas a mais opulenta e illustrada da Europa. As miserias e desgraças ordinarias da guerra são faceis de prever, e os governos dessas nações tinham-nas previsto: tínham-se preparado para ellas. Facultativos, hospitaes, enfermeiros, remedios, os confortos, em summa, que são compativeis com a dura e aventurada vida do soldado, não tinham sido predispostos com mão avara. Aquelles para quem esses immensos soccorros se destinavam eram homens no vigor da existencia, educados para affrontar virilmente as privações, a dor e a morte. As calamidades imprevistas não foram, nem podiam ser combatidas com menor energia. As inspirações da simples humanidade eram avivadas pelo interesse de manter a força material e moral dos exercitos, n'uma campanha onde se decidia o duello entre as sociedades do Occidente e os netos de Attila. Quanto a sciencia, a industria, a riqueza e a actividade administrativa podiam suggerir e applicar para allivio dos males inseparaveis da guerra, tudo se achava ao lado do homem robusto que padecia nos arraiaes da Criméa. Imaginar que cincoenta ou cem mulheres distribuidas pela vastidão dos hospitaes militares, suppriam, modificavam sequer as privações e os incommodos nascidos da falta accidental de recursos, ou das desordens imprevistas da natureza, é um paradoxo, que pedimos licença para não acreditar, embora tenha a seu favor o testemunho insuspeito de generaes que haviam metralhado a liberdade por conta da reacção, e que se ufanavam com a intimidade dos chefes do jesuitismo; embora se estribe nos elogios gratuitos de funccionarios collocados n'uma situação elevada, mas dependente desses pios generaes, e que nada perdiam em exaggerar, á vontade delles, os serviços dos jesuitas, dos lazaristas, das irmãs de caridade, ou de outras quaesquer corporações, que elles pretendessem exaltar.

Os pomposos relatorios das maravilhas practicadas pelas irmãs de caridade no Oriente o que provam de modo peremptorio é que a reacção é hábil. Sabeis o que se passava então no paiz que ellas abandonavam para supprir as insufficiencias dos governos da Inglaterra, da França, da Sardenha e da Turquia? Dir-vo-lo-hemos. Em França, dos doze milhões de desgraçados cuja alimentação consiste apenas em centeio, batatas e agua, e que em grande parte vivem em casebres infectos[18], morriam de fome e de miseria oitenta mil pessoas, só no decurso de 1855! É uma auctoridade insuspeita, o chefe actual da repartição de estatistica em França, que no-lo assegura[19]. Onde era o posto da irmã de caridade francesa no meio de tantos infortunios? Era na patria, ou nos acampamentos do Oriente? Era ao pé do soldado, ferido ou doente, mas de constituição robusta e de animo féro, vigiado, acariciado pela previdencia sollicita dos poderes publicos, ou na aldeia, no casal solitario, na agua furtada do operario fabril, ao pé da enxerga do velho, da mulher, do infante, nús, esfaimados, esquecidos do mundo, abandonados pela caridade publica, e enviando, talvez, no ultimo alento um grito de maldicção á sociedade? Se, educadas antes de se descobrir em França, que toda a mulher deve aprender nos primeiros annos a executar os artefactos proprios do seu sexo, não podiam trabalhar de noite e dia para ministrar aos extenuados e quasi moribundos, não confortos, não carinhos, não suavidades, mas simplesmente um bocado de pão negro que devorassem assentados no atrio da morte, podiam ao menos forcejar para que o ultimo suspiro delles não fosse um grito de desespero, mas um murmurio de resignação; podiam ir pelas portas do palacios sumptuosos implorar a piedade dos ricos; pelas moradas da devoção opulenta pedir-lhe que fechasse por minutos o Mez de Maria, para ler algumas paginas d'um livro plebeu chamado o Evangelho, que bastou para inspirar todas as virtudes, todos os heroismos do mais ardente amor do proximo nos seculos primitivos do christianismo. Os preceitos do livro plebeu podiam cumprir-se em França. Não sabemos se foram cumpridos no Oriente.