*Historia do Theatro Moderno Theatro Hespanhol*

PANORAMA

1839

*Historia do theatro moderno Theatro hespanhol*

I

Ha um anno a esta parte que o theatro começa a ter entre nós a importancia que ha muito tinha entre as outras nações da Europa. Acontecimentos, vulgarmente sabidos e que não veem ao nosso proposito, contribuiram para que a reforma do theatro, em todas as suas partes, que em todas d'ella carecia[18], excitasse o espirito publico: os periodicos falam já das actuaes representações, e julgam, bem ou mal, não só as novas tentativas litterarias que se teem feito, mas o modo porque são levadas á scena e executadas pelos actores: e não são, por certo, esses artigos os que se lêem com menos avidez.

No segundo numero do Panorama démos nós uma noticia do nosso theatro, precedida de alguns breves paragraphos acerca do theatro das outras nações: na conjunctura actual parece-nos que não será fóra de propósito o continuar aquelle artigo com mais alguns sobre a arte dramatica dos demais povos, cuja litteratura tem relação com a nossa, e como do theatro hespanhol veiu o português, conforme o que dissémos falando das origens d'este, será da origem e progresso do drama hespanhol, que tractaremos em primeiro logar.

Em Hespanha, como nos outros países, foi a egreja que fez nascer o drama: todavia a primeira representação, a que estrictamente se póde chamar theatral, e de que ha menção nos annaes de Hespanha, é a que se fez em 1414, na festa da coroação de Fernando o bom, rei de Aragão. Foi composta pelo marquez de Vilhena, e só sabemos que era uma peça allegorica, em que figuravam a Justiça, a Paz, a Verdade, e a Clemencia, de modo que pertencia á classe das moralidades, que tiveram voga por algum tempo, na infancia da arte dramatica hespanhola, e que depois Cervantes fez reviver. Pouco depois d'esta tentativa de Vilhena, o seu amigo, o marquez de Santilhana, homem, como elle, de grande saber e de idéas claras, reduziu a drama, com o titulo de Comedieta de Ponza, os incidentes de uma batalha naval, dada em 1435, juncto á ilha de Ponza, entre os aragoneses e genoveses, em que estes ficaram vencedores. O drama nunca foi representado nem impresso com as demais obras d'este auctor, e só se sabia da sua existencia pelas cartas do marquez, até que o sr. Martinez de-la-Rosa, o grande poeta hespanhol nosso contemporaneo, o descobriu entre os manuscriptos da bibliotheca real de Paris. Esta curiosa reliquia das primeiras tentativas do genio dramatico hespanhol é notavel pela habilidade que nella apparece, não só no modo de tractar um facto historico, mas tambem no enredo, dialogo, e versificação.

Foi pelos fins do seculo XV que em Castella se estabeleceu uma especie de theatro. Os primeiros ensaios dramaticos nesta parte da peninsula, fê-los João de la Encina, mui conhecido pelas suas poesias soltas, e cujas obras formam por si só um cancioneiro. Depois de alargar os limites das representações religiosas, compondo varios autos, onde não sómente se acham paraphrases da biblia, mas tambem invenções do poeta, formou o projecto de fazer saír o drama dos objectos religiosos, para o que compôs pequenas peças pastoraes, que denominou eclogas. Estas peças, em que elle proprio fazia os principaes papeis, se representaram primeiramente em casa do almirante de Castella, e da duqueza do Infantado. Como a denominação o indica, ellas de nada mais constavam do que de um dialogo entre dois ou mais pastores. O auctor, á imitação de Virgilio, usou a primeira vez d'esta invenção para celebrar, por via de allusões, algum acontecimento notavel, como a conclusão de pazes ou a volta de algum principe; e depois inventou uma acção curta e simples, na qual reduziu a drama as paixões das suas personagens. Estas pequenas peças, cortadas por danças, e acabando com vilhancicos ou cantigas, continham tambem alguma scena truanesca ou graciosa; de modo que nellas entravam juntamente os elementos da tragedia, comedia e opera. Teem estas primeiras tentativas bastante sal e agudeza, e ao mesmo tempo naturalidade e viveza. A primeira representação d'estas comedias pastoris fez-se em 1492, anno memoravel nos annaes de Hespanha, por ser o da conquista de Granada e do descubrimento do Mundo Novo. Foi tambem por este tempo que appareceu a famosa Celestina de Rodrigo de Cota, de que já falámos no primeiro artigo.

Os primeiros dramas regulares hespanhoes nasceram no principio do Seculo XVI, e, o que é mais notavel, fóra de Hespanha. Um certo Torres Naharro, residente em Roma, compôs alli varias comedias, que foram representadas perante Leão X.[19] Nellas a invenção é feliz, os caracteres bem traçados e o dialogo vivo, e contém algumas ousadias que neste auctor não eram de admirar, porque, apesar de ser clerigo e de viver na côrte pontificia, compôs satyras contra os ecclesiasticos, taes que Luthero não estimaria pouco ser auctor d'ellas. Naharro compôs tambem uma arte dramatica, a primeira que appareceu em castelhano: nella faz a distincção da tragedia e da comedia, e divide esta em duas especies, comedia de noticia, isto é, historica, e comedia de phantasia, isto é, de imaginação: foi tambem elle que inventou os introitos ou prólogos e que deu aos actos a denominação de jornadas, seguida depois constantemente pelos auctores hespanhoes nas divisões dos seus dramas.