Porque, Senhores, ou muito me engano, ou é esse o principal, diria quasi o unico mister que nos incumbe, aos que fomos escolhidos para falar neste dia e neste logar dos nossos fallecidos consocios. Em nome das letras, d'essa revelação formosa e sancta do ingenho humano, nos ajuntámos neste recinto: por ellas existimos como corporação: ellas nos fizeram irmãos e eguaes. Pelas letras as differenças voluntarias e incertas do mundo—as riquezas, o poder, os nomes d'avós, se convertem em palavras sem sentido. A democracia absoluta, sonho impossivel, talvez, de realizar na sociedade civil, torna-se entre nós uma condição d'existencia. Nas associações litterarias a vida é de certo modo immaterial, e as nossas distincções são unicamente as da superioridade do ingenho. Mas a ultima instancia onde taes preferencias se julgam é o tribunal da posteridade. Só a morte abre de par em par as portas d'este, e é ahi que definitivamente se resolve se o nome do que passou será lançado na herança dos seculos, na memoria perenne dos homens, ou se tal nome deve esquecer como esquece o som derradeiro da loisa caindo sobre a borda do sepulchro, onde foi repousar o que não pôde ou não soube conquistar a immortalidade.
É por este caracter democratico, de todas as corporações como a nossa, porque alheias inteiramente ás condições da sociedade civil, que me parece não ser nos archivos d'esse pobre mundo das vaidades, a que chamam realidade, onde hajamos de ir buscar documentos e testemunhos, que provarão muito para outro genero de renome e gloria, mas que de nenhum modo vem a ponto para as canonizações litterarias, no momento solemne em que devemos preparar o processo pelo qual a posteridade tem de julgar intelligencias ja livres d'este sudario da vida. Antepassados, haveres, grandeza, cargos, que nos importam? Outra é a nossa missão: temos de perguntar ao que traçou algumas palavras no livro eterno e immenso da arte e sciencia humana—Que foi o que fizeste?—Que era o que podias fazer? Isto é o que nos pertence, o resto á sociedade.
O nosso fallecido consocio, que passando na terra escreveu nesse livro uma das suas formosas paginas, foi o sr. Sebastião Xavier Botelho. Para se poder avaliar o merito d'esta escriptura de que preciso eu?—De lê-la.
Difficultosa é similhante leitura; porque as palavras do homem de ingenho são concisas e profundas: soletram-nas a custo os que não possuem esse dom de cima; e, sem humildade hypocrita, eu sei que pertenço a estes.
A culpa do máu desempenho será, pois, vossa, Senhores, que medistes erradamente as minhas forças pelos meus e pelos vossos desejos.
A historia intellectual e intima do sr. Botelho divide-se em dois grandes periodos: corre o primeiro desde a epoca em que concluiu os seus estudos de jurisprudencia na Universidade de Coimbra até áquella em que importantes e laboriosos cargos, que lhe foram confiados, o constrangeram a dedicar-se inteiramente ao cumprimento de suas obrigações, e a deixar os ocios litterarios da juventude: o segundo abrange o tempo que discorreu desde esta epocha até á da sua morte. O primeiro periodo foi para elle o do tracto e cultura das boas lettras: o segundo o do estudo dos homens e das coisas, da sciencia, da historia e do governo. No primeiro, o Sr. Botelho foi poeta: foi o homem do ideal: no segundo foi historiador, economista, e politico; foi o homem do mundo real. É nestes dois periodos que eu considerarei as obras da sua intelligencia, e procurarei responder á pergunta—Que serviços fez o sr. Botelho ao progresso do espirito humano?
As primeiras composições poeticas do nosso illustre consocio foram escriptas nos fins do anterior ou nos comêços do presente seculo: d'estas nenhuma viu a luz publica: as que se lhes seguiram, pertencendo pela maior parte á litteratura dramatica, tiveram o seu primeiro modo de publicação—o da scena: mas o unico penhor de duradoiras recordações e o unico fiador da perpetuidade da gloria, essa fonte de toda a sciencia e civilização modernas—a imprensa—faltou-lhes como ainda ha dez annos faltava commumente ás obras dos nossos bons ingenhos que nasciam e morriam sem a conhecerem; porque dois anjos máus a guardavam, os quaes tinham por nome—censura e ignorancia.
Por esses archivos de theatros jazem sepultados os dramas do sr. Botelho, dos quaes apenas é imperfeitissimamente conhecida a tragedia Ignez de Castro, e um pouco melhor a Zulmira, melodrama de que restam varias copias.
Zulmira é, como todos os melodramas, uma composição hybrida, monstruosa, e falsa á luz dramatica; mas considerada como um hymno aos nobres affectos do coração humano ella nos revela quanto era poetica e formosa a alma do Sr. Botelho. Poucos versos haverá da epoca em que foi escripta, a não serem os do melhor metrificador português—Bocage—nos quaes se encontre tanta suavidade, melodia e arte e ao mesmo tempo tão generosas idéas, tão affectuoso sentir, expresso muitas vezes com admiravel precizão. Não é um drama a Zulmira!—E que importa? Esther é uma elegia; Athalia uma epopea; mas elegia e epopéa sublimes de um poeta divino!
Mais bem salvas para a historia das letras foram as numerosas versões dramaticas do sr. Botelho—amparavam-nas, seus originaes, largamente conhecidos no mundo. Alem de muitas operas de Metastasio e de quatro tragedias de Racine, Berenice, Mitridates, Phedra e Bajacéto, elle transportou para a scena portuguesa quasi todos os mais afamados dramas de Voltaire, como Mahomet, Zaíra, Bruto, Marianna, Édipo e Semiramis, aos quaes accresceram muitos outros de menos celebres auctores dramaticos.