O seiscentismo foi uma resolução que falhou, uma tentativa de restauração da nacionalidade em litteratura, que não sendo acompanhada pela restauração social completa do modo d'existir português anterior ás influencias romanas, ficou aleijada e rachytica, e substituiu a uma arte antinacional, mas judiciosa e brilhante, outra falsa e além d'isso ridicula.
A celebre Arcadia, e a influencia que esta corporação teve nas letras foi uma nova reacção litteraria, e o dogmatismo em que se restauraram as doutrinas romanas, posto que reflexas já d'Italia e de França, foi ainda mais intolerante e absoluto que na epocha do renascimento. O seiscentismo acabou ás mãos dos arcades, que restabeleciam o predominio da arte antiga e revocavam o pensar e o estylo dos poetas do tempo de D. João III e D. Sebastião, ao passo que o Marquez de Pombal procurava restaurar a esquecida robustez da monarchia com a austeridade dos seus principios administrativos, e com a acção vigorosa do seu governo de ferro.
A monarchia do Marquez de Pombal era anachronica em politica: a restauração da arte romana era anachronica em litteratura. Ambas deviam necessariamente passar—e passar rapidas. Assim aconteceu. Além do anachronismo havia em ambas ainda outro elemento de dissolução. A fórmula politica nunca fôra tão absolutamente monarchica: a fórmula litteraria nunca fôra tão mesquinhamente romana. Nunca o motu-proprio fôra tão cabal explicação de todas as leis: nunca os nomes e exemplos de Aristoteles e de Quintiliano, de Horacio e de Virgilio, substituiram tão completamente o raciocinio na critica. Mas o Marquez de Pombal começava por discutir com a aristocracia e com a theocracia, e a Arcadia com o seiscentismo; os homens do futuro tinham portanto tambem o direito de discutir com elles. É o que tem feito e fará o nosso seculo.
A Arcadia derrubara a poesia seiscentista: cumprira com sua missão. Depois dogmatizou e morreu. Foi d'inanição. Esta sociedade, tão activa, tão belligerante, tão ruidosa nos seus começos—expirou, e nem sequer o mundo litterario deu tino d'isso. Era que a Arcadia nunca propriamente vivera, porque nunca representara uma idéa progressiva.
Foi depois d'ella que floreceu Bocage e a sua eschola, um de cujos luminares era o Sr. Sebastião Xavier Botelho. Resta-me trazer á vossa memoria o logar d'esse poeta e d'essa eschola nos annaes da arte.
Bocage vinha depois de duas restaurações classicas, ou romanas; assistira ao derradeiro clarão da segunda, e fora educado por ella. Os seus primeiros poemas são moldados pelos dos arcades, mas já nesses poemas ha mais inspiração, porque Bocage nascera e não se fizera poeta, com se haviam feito aquelles, se exceptuarmos Garção. As variedades que gradualmente appareceram no seu estylo e pensar foram mui pouco distinctas, salvo na metrificação em que escureceu completamente os arcades, e na tendencia, visivel nas suas melhores composições, para substituir a mythologia pagã pela allegoria, o que deveu talvez á influencia dos poemas descriptivos franceses, a que o materialismo e a incredulidade do seculo XVIII tinham reduzido a poesia d'aquella nação.
Mas é, Senhores, sob outro aspecto que importa considerar este homem extraordinario para avaliar a missão da sua eschola, e saber qual transformação o apparecimento d'ella veio produzir na arte.
Na litteratura dos arcades, como nas litteraturas de epocha de D. João III e da épocha d'Augusto; a poesia tinha sido essencialmente cortesã, aristocratica, altiva. Os pastores da Arcadia nunca assistiram aos mais sublimes espectaculos do universo, nunca sentiram no coração essas paixões violentas que devoram as existencias. Que sabiam elles dos campos de batalha, das sedições, dos grandes crimes e das grandes virtudes? Elles ignoravam o que são lagrimas de desterro, o que são contentamentos de tornar a ter patria. Odios, fanatismos politicos, ancia de gloria popular, ambições, miserias humanas, não existiam para elles. Os mares e os seus terrores, as solidões profundas das serranias, o ruido das torrentes, o sibilar dos ventos por gandras bravias, não imaginavam o que fosse. As procellas emfim da natureza, e as mais terriveis ainda do espirito em que parece deleitar-se o poeta d'este seculo grave e triste, porque o converteram á melancholia e ao cogitar profundo os seus destinos solemnes—tudo isso era alheio á suave existencia dos bons arcades. Sacerdotes, magistrados, e servidores do estado, o seu monte Menalo era uma sala adornada de sedas e razes; a sua lyra ou rabil uma penna muitas vezes dourada; as suas inspirações uma vasta erudição. Assim os affectos e imagens dos seus poemas vacillavam entre a frieza e trivialidade, e a exaggeração e mentira—porque para elles as paixões e a natureza estavam nos livros. Os livros foram o seu universo.
Bocage porém não era arcade. Era um homem do povo que alimentava no espirito todas as paixões violentas, e muitas vezes freneticas e desregradas do vulgo; e como o vulgo, ajunctava a feios vicios nobres e generosas virtudes. Era o trovador que improvisava os seus mais admiraveis versos no meio das multidões, á luz do sol ou dos astros da noite, nas orgias das cidades, nas festas campestres—em todos os logares, a todas as horas. Depois de Camões, Bocage foi o nosso primeiro poeta popular; como Camões, foi pobre, foi criminoso, e foi malfadado; adormeceu, como elle, muitas vezes no balouçar das vagas do oceano, e como elle orvalhou de lagrimas o pão do desterro, e veio morrer na patria sobre a enxerga da miseria. Similhante ao infermo do Evangelho passou pela terra abandonado, pobre, nú; mas como os antigos romeiros trovadores, alegrou ou commoveu os animos das classes não privilegiadas, ás quaes tres seculos tinham feito esquecer que a poesia era tambem e principalmente para ellas.
Bocage é o typo mais perfeito da sua eschola, e de feito devia sê-lo. Ella popularizou a arte, porque poetou principalmente para o povo, e emballou ao mesmo tempo com as melodias da linguagem, com o sonoro do metro, essas almas rudes mais attentas á harmonia da fórma que ao poetico do pensamento.