[21] Como hoje tanta gente faz criticas dramaticas—as mais difficeis de todas—bom será que reparem nesta observação de Schlegel acêrca do gracioso, personagem especial do drama peninsular. E ainda o grande critico alemão não apontou o motivo principal d'este elemento dramatico: o gracioso faz com que o drama seja em verdade a representação da vida, onde sempre o terrivel e o lepido se cruzam e misturam inextricavelmente. Não ser o gracioso elemento necessario do enredo tem por motivo a natureza d'esse papel: o burlesco póde deixar de ser necessidade da acção; mas nunca de ser essencivel á fórma da acção: no quadro dramatico o gracioso não é desenho, é côr; é a sombra do clarão do bello e sublime. A tragedia classica, e a tragedia de Racine morreu, porque não havia ahi o contraste: a comedia de Moliere vive, e viverá para sempre, porque nella as lagrymas tolhem ás vezes o riso: na comedia antiga apparecia o drama; na tragedia apenas havia poesia.

[22] Julgamos dever notar aqui que os nossos modernos actores ainda não chamam geralmente qualquer drama, senão comedia, embora elle seja tragico. Porventura é isto uma tradição de bastidores, conservada desde o seculo XVII, em que entre nós eram tão vulgares as representações dos dramas de Lope e Calderon, como na propria Hespanha.

[23] Para prova de quanto se podem aproveitar as leis como fontes da historia, não dos reis ou dos soldados, mas do progresso das nações, deixando as leis civis de que poderiamos apontar circumstancias de extraordinaria curiosidade, limitar-nos-hemos a dizer que d'estas mesmas constituições d'Evora se deprehende o uso antiquissimo das representações nas igrejas, e de outras indecencias semelhantes que o povo julgava então ou licitas ou piedosas. «Deffendemos, diz a constituição 10 do titulo 15, a todas as pessoas ecclesiasticas e seculares, de qualquer estado e condição que sejam, que não comam nas egrejas, nem bebam, em mezas, nem sem mezas; nem cantem, nem bailem, em ellas, nem em seus adros: nem os leigos façam ajuntamentos dentro dellas sobre cousas profanas; nem se façam nas ditas igrejas, ou adros dellas, jogos alguns, posto que seja em vigilia de sanctos ou d'alguma festa; nem representações, ainda que sejam da paixão de nosso Senhor J. C., ou da sita resurreição ou nascença; de dia, nem de noite, sem nossa especial licença; porque dos taes autos se seguem muitos inconvenientes que muitas vezes trazem escandalo nos corações d'aquelles que não estão muito firmes na nossa sancta fé catholica, vendo as desordens e excessos que nisto se fazem.» D'esta passagem se póde concluir que o uso de fazer autos nas igrejas data pelo menos do decimo sexto seculo, sendo, além d'isso, provavel, que semelhante usança remonte a epocha muito mais remota; porque os costumes populares levam muitos annos, tanto a estabelecer-se como a destruir-se; e com effeito, ainda no fim do seculo XVII o bispo do Porto, D. Fernando Corrêa de Lacerda, fulminava censuras contra taes comedias, como se vê de uma sua ordenança que lemos, ainda mais curiosa que a antecedente constituição; mas que por brevidade não apontaremos aqui.

[24] Nasceu em 31 de Outubro de 1750. Falleceu em 11 de Outubro de 1839.

[25] Na capa d'este artigo se omittiram por esquecimento em seguida ao titulo as palavras Panorama—1844.