—É o senhor, meu caro Despujolles? disse Antonino. Mas o que succedeu?... Porque não estou eu em minha casa?...
—Não falle, recommendou o medico. Vou pôl-o ao corrente do caso. O meu amigo foi ferido ha oito dias, n'um pretendido assalto d'esgrima, pelo patife do Pozzoli. O ferimento era serio, muito serio até! A nossa querida Laura mandou-o transportar para casa d'ella. O meu amigo está no salão da nossa amiga, deitado n'um leito que eu mandei arranjar de proposito, e que facilita muito os pensos. Durante essa terrivel semana, o meu caro visconde não teve, tanto de dia como de noite, senão uma enfermeira: Laura Linda, que apenas admittia que Jacintha a ajudasse algumas vezes na sua dedicada missão e nas vigilias longas. Está em via de cura rapida e completa, mas é necessario ter juizo, obedecendo ao seu medico como a um deus, não se mover, fallar pouco e pensar menos.
—Seguirei á risca as suas instrucções, meu caro doutor, e agradeço-lhe reconhecido os seus desvelados serviços, disse Antonino.
Em seguida estendeu a mão para Laura. A cantora pegou n'aquella mão descarnada, e disse, sem poder suster as lagrimas, que lhe deslisaram pelas faces:{148}
—Como é estupido chorar d'alegria!
—Sobretudo, accrescentou Despujolles, quando se corre o risco d'enternecer um doente. Nada de pieguices! Vou fazer o penso.
Antonino não cessava d'olhar para Laura, com expressão de reconhecimento e amor.
—Juizo! disse o medico no tom brusco que lhe era habitual, quando estava no desempenho das suas funcções. Espero que, logo que eu sahir, não comecem a contar historias um ao outro ou a cantar duetos. Addiem, addiem as explicações e os projectos para mais tarde. Creio que dei ao ferido todos os esclarecimentos necessarios...
—Entretanto, meu caro doutor... interrompeu Antonino.
—O que quer dizer?... Deixaria eu d'explicar claramente tudo o que se passou? Ah! como está em casa de Laura, é possivel que deseje que lhe expliquem o caso...