O conde, passados instantes, accrescentou:

—Nada tem no seu passado, Laura, de que deva{196} envergonhar-se. Estephania, que tem os prejuizos que sabe, sem duvida ficaria contrariada se lhe tivessemos, de principio, revelado toda a verdade. Mas agora ella já a conhece e apprecia. Tratou-a com uma dedicação tão fraternal, que minha filha está reconhecidissima. O arcebispo de Rennes, que possue um espirito superior, reclama este serviço; depois seria o primeiro a não consentir que elle se voltasse contra aquelles a quem o pede. Se o seu segredo, que é tambem nosso, tem de ser conhecido mais tarde ou mais cedo, parece-me que não encontraremos occasião mais favoravel do que esta, para que todos saibam que a esposa de meu filho foi cantora.

Antonino, menos optimista que seu pae, e vagamente inquieto, nada achou que oppôr ás razões apresentadas pelo conde.

De resto, como sempre, desejava fazer-lhe a vontade.

Assim pois, foi Laura a unica que resistiu á idéa de reapparecer e cantar em publico.

Mas não queria ou não podia dizer tudo o que pensava sobre o caso.

A verdade era que, sobretudo, ella temia-se a si propria.

Sabia com que intima alegria estremecera no dia da inauguração da capella.{197}

Dois dias antes, ao cantar, ante um auditorio ainda assim restricto, a Ave Maria de Gounod, experimentára maior satisfação.

Os bravos e palmas que então ouvira, tinham a como que transportado aos bellos tempos em que ella arrebatava uma platéa inteira.