—Mas sentes apenas fadiga? Nada mais te atormenta e incommoda?
Antonino hesitou, mas por ultimo disse:
—Porque não hei-de confessar-te tudo? É verdade, sim, estou desgostoso! Sabes o que me incommoda? É a idéa de que devemos a Lauretto Mina o obsequio de fingir que te não conhece, de não se indicar como teu antigo companheiro no theatro, e, principalmente,{222} a certeza de que elle, como dantes, cantará ao teu lado, diante de numeroso publico. Se tivesse supposto que esse insolente cantaria no concerto, affianço que não consentiria que tu cantasses tambem.
—Lembra-te de que, se vou cantar, é exclusivamente para te comprazer e a teu pae. De resto, é tempo ainda. Queres que não cante? Affianço-te que essa tua resolução não me entristecerá, pelo contrario, porque talvez assim tu fiques completamente socegado.
—Sim, replicou Antonino. Se não cantares socegarei, porque desapparecerá a inexplicavel apprehensão que me assaltou, e de que só por essa fórma conseguirei libertar-me.
—Abraça-me e socega. Não cantarei ámanhã, e ficarei tão satisfeita como tu.
Quando chegaram a Saint-Malo a cidade estava já envolta em trevas. Prepararam-se rapidamente para o jantar, que era de cerimonia.
Os artistas que cantariam no dia seguinte jantavam em casa do barão de Pontual.
O conde de Bizeux tinha á sua meza, além do arcebispo de Rennes, todas as pessoas d'importancia que tinham chegado de varios pontos da Bretanha para assistir ao concerto, que em toda a provincia despertára o maior enthusiasmo.{223}
Findo o jantar, Antonino e Laura chamaram o conde de parte.