Jámais, porém, a ouvira cantar com aquella paixão e embriaguez.
N'outro tempo ella comprehendia, adivinhava.
Agora sentia, recordava-se.
No espirito d'Antonino passou como que uma hallucinação extranha.
Quando viu Laura—porque, para elle, aquella mulher deixára de ser Valentina—lançar-se, supplicante, aos pés de Lauretto—que já não considerava como Raul—acerbo ciume se apossou d'elle.
Pouco a pouco, o admiravel jogo physionomico da Linda acabou por dar á ficção uma realidade terrivel.
O salão, o publico, desappareceram.
Parecia-lhe que assistia, immovel e mudo, a uma verdadeira scena d'amor entre sua mulher e aquelle homem detestado.
E no cerebro fervia-lhe, confusamente, este pensamento:
—Por grande tragica que seja, poderia Laura, se Lauretto lhe fosse indifferente, envolvel-o em arrebatados abraços, dirigir-lhe tão ardentes supplicas? Poderia, se não o amasse, attrahil-o e retel-o contra o coração com tal accesso de ternura e de dôr?