—Estive muito tempo sem consciencia...

—Mas depois?

—Depois ias tu entrar para o theatro. Tinhas reclamado a minha palavra, não quiz privar-te da liberdade{278} promettida Não desejei ser um impedimento, um obstaculo á vontade que tinhas de voltar para o theatro, que é como o teu paiz natal. Álem disso, considerei-me obrigado a expiar algumas culpas, Eras tu que tinhas rasão, Laura, n'aquella funesta noite em que partiste. Que me importava a opinião d'estranhos? Não devia inquietar-me com os prejuizos da sociedade. Existe, porventura, a sociedade para o amor? A sociedade, para nós, somos nós proprios. Ama-me como eu te amo, e nada mais te pedirei. Que me importa que ames tambem Mozart, Beethoven e Meyerbeer? Não os amo eu tambem, principalmente por tua causa?

—Ah! como és bondoso! disse Laura. Sim, amas-me, sinto-o! A proposito: assististe ao espectaculo de hoje?

—Assisti.

—Não te vi, mas adivinhei-te!... Sentiste no meu canto que pensava em ti, não é verdade? Nem por um momento me esqueces quando desempenho o papel de Valentina, cheio de phrases que parecem ter sido escriptas para a situação d'espirito em que me encontro. Aquella musica faz-me mal, especialmente depois que estou só, e comtudo sinto-me feliz quando a canto! E o dueto do quarto acto? Não é verdade que o canto agora melhor do que d'antes?

—Sim, sim, cem vezes melhor!{279}

Laura ajuntou, collocando as mãos sobre os hombros, do marido:

—Foste tu que me ensinaste a cantar aquelle dueto!

Antonino sentiu o coração innundado d'alegria.