Era possivel que o pae viesse vel-o, mas só muito mais tarde.
—Bem, disse Laura satisfeita, sorridente, qual é a vontade do meu senhor e amo? Irei eu para sua casa, ou irá elle para a minha?
—Escuta, replicou Antonino, vou contar-te um sonho que tive durante os longos dias de convalescença. É provavel que aches n'elle o quer que seja de romanesco. Se te desagradar, dil-o com franqueza! Quebraste bruscamente a nossa vida em commum, que talvez fosse um pouco monotona para a tua alma d'artista. Se quizeres, viveremos agora d'outra forma. Recuperaste a tua liberdade; como tenho plena confiança em ti, deixo-t'a. Não serei mais teu marido, passarei a ser teu amante. Queres?
—Quero, sim, quero, porque é a verdade!
—Então nem eu irei para tua casa, nem tu te installarás na minha. Concede-me oito dias d'espera. Durante esse tempo encontrarei e prepararei em qualquer canto de Paris, um ninho, occulto, secreto, apenas por nós conhecido, onde ninguem poderá surprehender-nos ou incommodar-nos. Dar-nos-hemos entrevistas n'esse ninho, furtivamente, clandestinamente, de noite, como quem teme a policia. De dia seremos correctissimos. Eu irei visitar-te de tarde,{281} e tu convidar-me-has algumas vezes para jantar com Despujolles.
—Oh! mas isso é encantador! disse Laura.
—Agrada-te a minha idéa?
—Immenso!
—Bem! Havemos de ser muito felizes, verás. Está combinado. Chama Jacintha. Vou deixar-te, para só te tornar a ver d'aqui a oito dias. Necessito de todos os minutos d'esta semana para tratar da nossa felicidade. O que me fará diminuir o pesar d'esta separação, será lembrar-me que me occupo da minha querida Laura.
—E eu, durante esse tempo, só em ti pensarei!