—Ha vinte minutos que nos olhamos fixamente; eu, que não tenho uma arma na mão, sinto-me já fatigado. Pesa-me a cabeça e cerram-se-me as palpebras. O relogio marca quatro horas e trinta e cinco minutos. Só amanhecerá d'aqui a hora e meia. Quando nos tivermos hypnotisado mutuamente, veremos se o seu olhar não se turbará, se os seus joelhos não se dobrarão, se o braço não se baixará por si proprio. Veremos se a gallinha não acabará fatalmente por ser magnetisada, immobilisada... e tomada pela raposa!
—Veremos! respondeu Laura apertando com mais força a coronha do revolver.
Desde esse momento guardaram ambos o mais absoluto silencio.{307}
No quarto ouvia-se apenas o tic-tac monotono da pendula.
O relogio deu os tres quartos para as cinco horas.
Os minutos passavam com uma lentidão mortal.
Laura sentia, com temor crescente, que o miseravel dissera a verdade.
A tensão enorme em que desejava conservar o espirito fazia-lhe diminuir as forças do corpo.
Via como que sombras passarem-lhe pela frente; sentia nos ouvidos um ruido extranho, as pernas dobravam-se-lhe, e a custo conservava o braço meio estendido, empunhando o revolver.
O que mais a angustiava era a arma estar descarregada.