A uma outra necessidade tambem a industria particular deveria attender, ajudada pela protecção do governo; mal se comprehende que uma colonia commercial por excellencia, como é Lourenço Marques, possa estreitar as suas relações com a metropole, sem que haja navegação sob a bandeira nacional. Uma tentativa se fez, a da Mala Real, mas essa tristes resultados deu, não porque a empreza não tivesse em si largos elementos de exito, mas pela menos conveniente administração que teve, aggravada por exigencias por vezes injustas das auctoridades em Africa, que faziam demorar os vapores a seu talante, auctorisando-se para isso da irregularidade das carreiras.
Dos vapores da Mala não se sabia nunca, nem o dia da partida, nem o da chegada, e passageiros houve que levaram quasi tres mezes de Lisboa a Lourenço Marques, isto não obstante os vapores serem de primeira ordem e commandados por officiaes competentissimos.
Assim, resumindo, o futuro de Lourenço Marques está, a meu vêr, dependente da nossa iniciativa commercial e industrial. O seu desenvolvimento{42} abre um largo campo de acção ás classes liberaes e ao operariado escolhido da metropole, que encontrarão n'um paiz de lingua, costumes e leis analogas ás da metropole, vantagens não inferiores ás que apontei para o commercio metropolitano.
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Resta-me ainda dizer algumas palavras de Lourenço Marques como colonia de exploração, e debaixo d'este ponto de vista creio que, se o districto tem elementos de riqueza e futuro desenvolvimento, estão elles longe dos que se notam em Inhambane, Quilimane e outros districtos do norte da provincia. Entretanto, pela sua situação fóra dos tropicos e pela sua posição geographica, algumas probabilidades tem de aproveitamento, que conviria utilisar, imprimindo á colonisação do districto, além do caracter commercial predominante, uma feição de colonia de exploração, secundaria, ajudando-se as duas mutuamente.
A colonia de exploração propriamente dita deve poder produzir generos de venda remuneradora, taes como o café, o cacau, a canna, a quina, etc., que compensem as despezas e sacrificios da cultura e ao mesmo tempo dispôr de mão d'obra abundante e facil, que substitua{43} a do europeu, que unicamente deve dirigir os trabalhos.
Lourenço Marques, pelo menos na região visinha da costa, onde os transportes são relativamente faceis, poderá talvez produzir os generos a que me referi, e entre outros a canna saccharina e a borracha já ali se desenvolvem. Produzirá igualmente os outros generos, com economia? Não sei, visto não haver experiencias que nol-o indiquem.
E merecerá a pena tental-as, quando a pequena distancia para o norte da provincia temos regiões onde as condições do clima são excepcionaes, bem como a fertilidade do sólo, para o estabelecimento de colonias de exploração, como em toda a região do Zambeze? Não creio. Seria ir experimentar o duvidoso, desprezando o certo.
Demais, em Lourenço Marques a mão d'obra é cara. O preto ganha ali, trabalhando muito menos do que o europeu o faz na Europa, 2 a 3 shillings diarios ou seja de 600 a 900 reis, e não é facil encontral-os por preço menor, visto que é este o salario que podem ganhar em qualquer centro aurifero do Transvaal. Em tempos, o governo do districto, cedendo ás queixas geraes dos habitantes, quiz regulamentar os salarios dos cafres, esquecendo o principio geral da offerta e da procura, sendo o resultado perfeitamente nullo, por isso que, quando precisavam{44} cafres, eram os que mais tinham reclamado, que iam offerecer maior salario aos do visinho.