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Não seria, pois, razoavel procurar fazer de Lourenço Marques uma colonia de exploração propriamente dita, tentando introduzir ali, com sacrificio, culturas que a provincia n'outros pontos espontaneamente nos dá. O futuro de Lourenço Marques está inteiramente ligado ao seu desenvolvimento commercial e á emigração para ali de individuos capazes de o alargarem e de capitaes que o facilitem, e isto está, mais uma vez o repito, nas mãos da iniciativa particular.
Ao governo compete não contrariar, pelas suas medidas administrativas, essas iniciativas e vigiar para que os seus agentes sigam a mesma-ordem de idéas. Por nós ou pelos estrangeiros, Lourenço Marques ha de fatalmente tornar-se o primeiro porto commercial da Africa do sul, e tudo o que contrarie esse destino redundará em nosso damno.
A permanencia dos governadores no districto (de 1881 até 1896 houve vinte e sete mudanças{55} de governadores), a creação de tropas coloniaes, a separação naturalmente indicada de Lourenço Marques e Inhambane, n'um governo autonomo, do resto da provincia, a applicação dos rendimentos do districto ao seu melhoramento, sem os distrahir para fóra, a nomeação de pequeno numero de funccionarios, bons e bem pagos, em vez de muitos e mal pagos, o ensino obrigatorio da lingua cafreal, a organisação dos cafres no interior, sem vexames, causa de todas as revoltas, e tantas outras questões de administração, só podem ser ordenadas pelo governo, e muito contribuirão para a prosperidade do districto, com o qual a metropole já hoje não deveria fazer despezas.
Que os penosos e lentos sacrificios que nos impuzemos durante muitos seculos, não vão hoje, que a messe está madura, aproveitar a outros, que avidamente espreitam o momento de lançar mão dos nossos despojos; e que uma colonisação preponderante e activa nos mantenha aberto o vasto campo de expansão e actividade necessario a um povo que não está ainda completamente decadente e perdido, é o que devemos procurar.
De entre os restos do nosso vasto dominio colonial é Lourenço Marques aquelle de que a avidez estrangeira mais nos demonstra a importancia capital para o futuro desenvolvimento de Moçambique. Para que a sua desnacionalisação{56} não se opere, torna-se necessario que para ali concorra a actividade commercial, a industria e os capitaes, que são ainda mais do que os emigrantes, o nervo da colonisação, e de todos estes meios de acção nenhuma região é mais rica do que o norte do paiz e em nenhuma cidade elles se encontram mais largamente espalhados do que no Porto.
É por isso que, agradecendo ao Atheneu Commercial do Porto o honroso convite com que me distinguiu, e á assembléa a cortezia e attenção com que se dignou escutar o que diligenciei expôr, sem galas de estylo, mas com inteira franqueza e verdade, me sentirei verdadeiramente orgulhoso, se por pouco que seja, tiver conseguido attrahir sobre Lourenço Marques as attenções d'uma cidade, a primeira sempre no paiz, nos grandes emprehendimentos de que póde resultar para a nossa querida patria, riqueza, gloria e prosperidade.
[1] Dados extrahidos do Districto de Lourenço Marques, por Eduardo de Noronha.