E, com effeito, todas as tentativas n'esse sentido têm dado mau resultado.

Dizem uns que este facto é devido a serem os colonos lançados em Lourenço Marques, sem que o districto esteja preparado para os receber. Mas póde o governo dar-lhes os capitaes, a immunidade ao clima e as qualidades de que o colono careceria de ser dotado em Lourenço Marques? Decerto não.

Dizem outros que o mallogro se deve attribuir á carestia dos terrenos do Estado, que se manteve durante alguns annos. Mas de muitos mil hectares de terrenos concedidos a particulares, poucos ou nenhuns foram aproveitados, e quem d'elles tirou melhor proveito foram os que, sem maiores cuidados, pediram e obtiveram concessões, esperando em seguida que o progressivo augmento da cidade os valorisasse, para auferirem grossos lucros, como succedeu com a Pulana, que, concedida por centos de mil reis a um inglez, foi vendida por centos de contos, e ainda com a Catembe, onde até á linha de costa, contra expressa determinação da lei, se fizeram concessões a individuos que com isso lucraram mais tarde muitos milhares{20} de libras sem o menor trabalho. Tal foi durante muito tempo o resultado das concessões baratas, sem se cultivar um só dos milhares de hectares concedidos.

A meu vêr nenhuma d'estas razões colhe. Lourenço Marques não tem progredido como colonia de população, porque não está em condições de o poder ser.

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Se passamos a considerar Lourenço Marques debaixo do ponto de vista commercial, as negras côres sob que acabamos de descrevel-o como colonia agricola, mudam por completo, para nos mostrarem aquella região como destinada a ser o emporio da Africa do sul, a colonia commercial por excellencia, cuja importancia e valor se nos torna bem manifesta pelas multiplas cubiças que, felizmente para o nosso dominio, tem despertado.

E digo felizmente, porque a ellas se deve o conservarmos ainda nas nossas mãos aquelle esplendido porto, unico na costa oriental, em toda a extensão que vai desde o Cabo até Moçambique. A sua posse, porém, impõe-nos obrigações que o rapido progresso da civilisação do sul africano exige e ás quaes temos de satisfazer, sob pena de sermos em breve eliminados{21} por não correspondermos á alta missão que nos incumbe.

Situada sobre o caminho commercial que conduz ao interior do Transvaal, na sua região mais rica, servida com facilidade pelas vias fluviaes de que dispõe o interior do districto e parte do territorio inglez do centro d'Africa, Lourenço Marques vai-se desenvolvendo de modo tal, que de um anno para o outro se transforma e amplia. As vantagens do porto impõem-se de tal fórma, que as mercadorias affluem em quantidade, todos os dias crescente, não obstante o pouco cuidado com que temos olhado para os seus melhoramentos materiaes, e tambem a guerra de toda a especie, que lhe tem sido movida pelos seus concorrentes naturaes.

Com effeito, as colonias sul africanas não podem vêr com bons olhos o desenvolvimento de Lourenço Marques e por isso vem de longe as difficuldades de toda a ordem que lhe têm levantado. Ha annos, jornaes, livros e publicações de toda a especie, declaravam ao mundo que a insalubridade da povoação era tal, que passar ali, equivalia a uma condemnação á morte; mas a população ia crescendo, em condições mais favoraveis do que em muitas colonias inglezas. Mais tarde quizeram inutilisar o nosso caminho de ferro, graças a uma completa liberdade de tarifas, que menos reflectidamente{22} lhe tinhamos concedido; pudémos evitar esse mal, mas á custa da indemnisação que nos imporá o tribunal de Berne. Mais tarde ainda, procuraram fazer-nos passar por incapazes de manter a soberania portugueza no districto, levantando-nos toda a casta de difficuldades por intermedio dos regulos indigenas.