Este ultimo ponto, porém, já implica muito com a iniciativa particular, pois o governo tem, naturalmente, para melhorar as condições da cidade e seu porto, de entregar a execução dos melhoramentos necessarios a emprezas que d'elles se encarreguem mediante certas concessões.
Seria, pois, indispensavel que os capitaes portuguezes se não retrahissem tanto e confiassem mais nos lucros extraordinarios, por vezes fabulosos, que podem auferir em Lourenço Marques.
Infelizmente, porém, a iniciativa e os capitaes portuguezes pouco affluem á colonia, e se se encontram algumas poucas firmas portuguezas, como Cardoso, Fornazini, Baptista Carvalho, Nogueira Pinto, etc., que ali luctam pela{25} vida, mantendo o commercio portuguez e a sua feição especial, em compensação abundam os estrangeiros, Mac Intosh, Gubler, Auerbach, Donaldson, Hoffman, Idolgy, e tantas outras, que principalmente açambarcam o commercio, possuem as melhores propriedades e dominam na praça.
Não vemos frequentemente homens energicos, de iniciativa, representando ou possuindo capitaes, partir para Lourenço Marques, a tentar novas industrias e fundar novos centros de nacionalisação, com o que muito ganham os estrangeiros, de modo que dos milhares de libras que representam o commercio da cidade, só uma pequena parte aproveita á metropole; o resto ou é absorvido pelo commercio estrangeiro europeu ou vai para a India.
O commercio indiano tem um feitio especial; em lojas, quasi sempre de mesquinha apparencia, vêem-se alguns individuos, embrulhados em algodão branco, fallando a lingua cafreal, o portuguez e o inglez, vendendo em geral de tudo, desde a lata de conserva até aos productos cafreaes. D'estas lojas saem agentes do mesmo jaez que, espalhando-se pelo interior, vivendo como os indigenas cujas manias lisongeiam, e protegidos pelos regulos a quem fazem presentes, monopolisam por completo o commercio do interior. D'esta fórma as lojas dos indios e mouros são os centros d'onde irradiam{26} centos de braços, que vão recolher no interior os milhares de libras que os cafres trazem annualmente do Transvaal e Natal, libras que são immediatamente mandadas para fóra do districto.
Estes homens, sustentando-se de arroz e pouco mais, vestindo-se com uma tira de algodão, tudo oriundo da India, nada consomem da metropole e fazem uma concorrencia ao europeu, que precisa vestir-se, alimentar-se e cuidar de si. Recolhido o seu peculio, voltam para a India, onde o vão gozar depois de purificados, purificação essa que os lava do contacto com infieis e tambem de todas as traficancias que tenham podido commetter.
Muitos d'estes indios são inglezes, o que mais aggrava a situação, pois que se encontram sempre apoiados pelo seu governo, para pretendidas indemnisações a que se podem julgar com direito por perdas soffridas no interior. E não se imagine que, ainda quando portuguezes, auxiliem o nosso dominio; quando durante a guerra de 1895, as tropas chegavam aos locaes onde os indios estavam estabelecidos, estes fugiam... com os cafres: um indio na Manhissa aconselhava os pretos a não receberem a prata portugueza, «que não era boa», e com effeito vendia carissimo quando elles lhe pagavam n'essa moeda.
É certo que algumas vezes prestaram, por{27} interesse proprio, serviços ao governo, mas esse facto deu-se principalmente quando em Lourenço Marques quasi não havia colonos portuguezes. Hoje são um obstaculo, porque é difficil fazer-lhes concorrencia, e bom era que um imposto pesado os collocasse em circumstancias analogas aos europeus, pois que d'outro modo o commercio do interior continuará nas mãos d'elles e o ouro que vem do Transvaal continuará a seguir para a India.
Demais, a moeda portugueza usada em Lourenço Marques favorece a emigração do ouro: consiste ella em moeda de prata e notas da fazenda ou do Banco Ultramarino, com que se fazem os pagamentos ao governo, emquanto que a moeda ordinariamente usada nas transacções commerciaes é a libra sterlina. Ora, quando um paiz tem duas moedas, uma boa, o ouro, e outra má, a boa emigra e a outra fica.
Creio seria facil acabar com este inconveniente, determinando-se que todos os pagamentos fossem feitos em ouro, como o fez a Companhia de Moçambique, com bom resultado nos seus territorios, admittindo-se a prata só como moeda subsidiaria. Não haveria embaraços, como os não houve na Beira, e tambem não se alterava, para com o resto da provincia, o actual estado de coisas, por isso que a rupia que n'ella corre não é aceita em Lourenço Marques e até o Banco Ultramarino tem{28} dois typos de notas, um para Lourenço Marques e outro para os demais districtos.