Conta-se que uma dama da Campania estendendo, um dia, deante d'ella as suas joias e os seus preciosos adornos, e pedindo-lhe para que ella lhe mostrasse as suas, Cornelia lhe apresentou os filhos, dizendo:
—«Eis as minhas joias e os meus adornos».
XV
Cresus
Cresus, rei da Lydia, submetteu a maior parte das cidades da Asia Menor, e levou as suas conquistas até ao rio Halys. A fama do seu poder e das suas riquezas, constantemente renovadas pelas areias auriferas do Pactolo, tornou proverbial o nome de Cresus, para designar um homem cumulado dos bens da fortuna. Elle perguntou um dia a Solon, que fôra visitar a sua côrte, se conhecia um homem mais feliz do que elle. O philosopho respondeu-lhe que nenhum homem póde ser saudado com o nome de feliz antes da sua morte. Cresus não tardou a experimentar os effeitos d'esta triste verdade. Um de seus filhos foi morto na caça, o outro tornou-se mudo, e elle proprio, depois de ter visto os seus Estados invadidos por Cyro, foi vencido na celebre batalha de Thimbreia e cahiu nas mãos do vencedor, que ordenou a sua morte. Quando o conduziam ao supplicio, vieram-lhe á memoria as palavras de Solon, e elle pronunciou tres vezes, suspirando, o nome do legislador atheniense. Instruido da causa d'esta exclamação, Cyro, commovido de piedade e tocado d'aquelle exemplo das vicissitudes humanas, perdoou a Cresus e admittiu-o no numero dos seus conselheiros.
Esta bella legenda philosophica da vida de um homem, que foi successivamente, e d'um modo tão frisante, o favorito e o joguete da fortuna, é narrada por Herodoto, mas Xenophonte não falla d'ella.
—O nome de Cresus passou a designar um homem opulento, coberto de todos os favores da fortuna.
XVI
Dôr, tu não és um mal
O stoicismo, fundado por Zenon, fórma uma das mais illustres philosophias da antiguidade. Simples no seu principio e nas suas deducções, frisante pelo seu caracter heroico e paradoxal, de tal modo se fez conhecer, ao menos, pelos traços mais salientes da sua moral, que os nomes de stoicismo e stoico, entraram na applicação usual da lingua, como expressão d'uma grande impassibilidade. Os stoicos faziam consistir a virtude e a ventura na posse d'uma alma egualmente insensivel á voluptuosidade e á dôr, liberta de todas as paixões, superior a todos os receios, a todas as fraquezas. Admittindo como mal apenas o vicio, como bem sómente a virtude, e considerando o resto como indifferente, elles negavam que a dôr fosse um mal. Zenon, seu illustre chefe, foi o primeiro que proclamou a lei do dever e que d'ella lançou os fundamentos com uma abundancia de provas que tinha a sua origem n'uma profunda convicção, independentemente de toda a argumentação dialectica. As paixões não são elementos necessarios da nossa condição; são doenças da alma: a saude, a apathia, a ausencia das paixões. Foi por causa d'esta severidade d'opiniões moraes, pelo menos entre os primeiros stoicos, que se deu, em geral, o nome de stoicismo a toda a opinião severa em moral.
Esta doutrina, que se allia perfeitamente com todas as grandes virtudes, e que tendia a fazel-as nascer, logrou grande credito entre os romanos, apesar da sua pequena inclinação pela philosophia; adoptaram-na com enthusiasmo, porque se concertava admiravelmente com a sua energia intellectual e a sua severidade. Notou-se, em honra da seita dos stoicos, que os personagens mais virtuosos de Roma a tinham adoptado:—Bruto, Catão d'Utica, Thrasêas, Seneca, Tacito, Epictecto, Antonino e Marco Aurelio. A moral ficou como gloria dos stoicos, e tirando-lhe o que encerra de paradoxal e exaggerado, ella assegura-lhes o primeiro logar entre os percursores mais puros e mais directos do christianismo.