Vem a proposito citar que Henrique IV, que antes de entrar em Paris fôra obrigado a comprar muito caro os chefes da Liga, modificou, a este respeito, da maneira mais original e mais espirituosa, a lettra do Evangelho.

Um dia depois do seu jantar, Henrique IV disse ao seu secretario:

—«Que pensas, vendo-me em Paris como estou?»

—«Penso, senhor, que deram a Cezar o que era de Cezar, como é preciso dar a Deus o que é de Deus ...»

—«Ora essa!—replicou o rei—não me fizeram como a Cezar, porque me não deram, mas porque me venderam o que era meu.»

LVII
Salto de Leucade

Sapho, a mais illustre das poetisas, appellidada a decima musa, nasceu em Mitylene, na ilha de Lesbos, pelo anno 600, antes de Christo. Amiga do poeta Alceu, ella foi arrastada na conspiração contra Pittaco e acabou os seus dias no exilio.

Os antigos representam-na devorada pelas paixões e entregue ao furor dos sentidos; e elles não davam o nome de versos ás suas poesias, mas ardores, chammas, etc.; e acceitando os costumes muito conhecidos das lesbianas com a indulgencia cynica d'aquella epocha, elles inflammavam-se n'um enthusiasmo sem limites pelo lyrismo desordenado dos seus cantos, pela graça exquisita, pela harmonia arrebatadora e pelo estylo de fogo das suas odes.

Conta a tradição que, apaixonada pelo insensivel Phaon, joven lesbiano, d'uma grande belleza, e não podendo vencer os seus desprezos, ella se precipitou, cheia de desespero, do alto de Leucade no mar.