O mais illustre d'entre elles, Santo Antonio, dera o exemplo, distribuindo a sua fortuna aos pobres, para viver do trabalho das suas mãos. A sua reputação de santidade espalhou-se ao longe, e a breve trecho, milhares de discipulos se gruparam em volta d'elle. Durante algum tempo, foi, d'algum modo repovoado de monges e anachoretas. Mas afinal a despovoação geral do Egypto produziu a extincção de quasi todos os mosteiros, que se haviam creado.
Hoje, só as cellas vasias, marcadas com o symbolo dos christãos, indicam a assistencia d'esses religiosos nos templos pagãos arruinados, bem como as grutas dos sepulchros da Thebaida.
—Na linguagem ordinaria, Thebaida, diz-se d'um deserto, d'uma solidão profunda, em que se vive retirado do mundo; mas esta palavra está longe de ser tomada sempre n'este sentido. Faz-se muitas vezes uso d'ella, em poesia, especialmente para designar um retiro favorito, que propositadamente se escolhe, longe do bulicio, para o goso das doçuras da amisade, ou dos encantos do amor.
Lembra-nos até que Theophilo Gautier disse já n'uma das suas esplendidas poesias:
«Um bom cottage inglez, eis a Thebaida sua!»
LXI
Desça o panno, acabou a comedia!
Rabelais, o mais philosopho dos bufões, e o mais bufão dos philosophos, nasceu perto de Chinon, em Touraine, por 1483. Os seus biographos são pobres em factos authenticos, mas em compensação abundam em anecdotas romanescas, de onde resalta esse typo de cara alegre e tolerante, amigo de Baccho e da dança, o que só se ama por excepção. O genero muito particular do seu genio foi perfeitamente pintado por La Bruyére:—«Onde Rabelais é mau passa muito além de peior; é o encanto da canalha; aonde é bom, elle vae até ao extremo de excellente, e póde ser um prato dos mais delicados.» De resto, este sentimento do moralista parece ter sido dictado pelo proprio Rabelais que recommendava aos seus leitores «que abrissem a caixa para tirarem a droga, e quebrassem os ossos para chucharem a medula.» Mas o que domina na sua vida e nos seus escriptos é um septicismo zombador que ataca todas as crenças, todas as instituições, todos os sentimentos, e que estala, sobretudo, nos ultimos momentos da sua vida.
Entre as numerosas versões que foram reproduzidas ácerca da sua morte, encontra-se esta. O cardeal de Châtillon, seu amigo, tendo enviado um pagem a informar-se da sua saude, elle respondeu-lhe: