«É um estudante, noviço na arte da poesia, que se aventura a dedicar-lhe a sua primeira obra, tendo-o sempre reconhecido por um dos nossos celebres, pelas pomposas obras que tem dado e dá á luz todos os dias. Eu julgar-me-hei feliz se quizer lançar um rapido olhar a essa pequena obra, favorecendo-a com a menor das suas recordações. Faltaria a um grande dever se não confessasse que o reconheço por meu mestre. Se pela sua bondade se dignar favorecer-me eu prometto-me que, livre de todo o receio, publicarei constantemente os seus louvores e testemunharei em toda a parte, quanto lhe sou devedor por a haver acceitado.

«Sou, M.r e caro confrade, humillissimo e affeiçoado servo

André.»

O grande poeta divertiu-se muito com esta singular e comica confraternidade. E respondeu ao seu caro confrade com uma missiva de quatro paginas, encerrando apenas estas palavras, cem vezes repetidas:—«Faça cabelleiras, mestre André; faça cabelleiras, mestre André.»

Esta espirituosa resposta fez dizer a mestre André que Voltaire envelhecia, porque começava a repetir-se.

A obra prima de mestre André fez muito ruido, porque em 1805, mais de quarenta annos depois, um director alegre fez representar a peça O terramoto de Lisboa, n'um pequeno theatro de boulevard e ella obteve um immenso successo comico, em oitenta representações successivas!

—A phrase—faça cabelleiras, tornou-se uma das locuções mais pittorescas da lingua franceza, com emprego em todas as outras. É uma traducção espirituosa e comica do ne sutor ultra crepidam, dos latinos.

LXXIV
Fé do carvoeiro

Dá-se por origem a esta locução o seguinte conto. O diabo, disfarçado em eremita, e, segundo outros, em doutor de Sorbonne, entrou um dia na cabana de um carvoeiro e disse-lhe para o tentar: