LXXXIX
Bandeira da Misericordia

D'antes, por um privilegio, fundado, decerto, n'um principio caritativo, as irmandades da Misericordia eram obrigadas—e no Estatuto d'algumas se acha consignada esta obrigação—a acompanhar com a respectiva bandeira, os condemnados a pena ultima, desde o carcere ao local do supplicio.

Alli, tanto que a victima era executada cobria-a immediatamente essa bandeira, o que equivalia a tomar a Misericordia conta do cadaver, a fim de prevenir ou evitar profanações no corpo, por parte dos populares, arrastados, muitas vezes, a scenas bem pouco edificantes, pela excitação de odios e de paixões violentas e desordenadas.

Quando acontecia que a corda se quebrava—no supplicio da forca—e o paciente cahia com vida, desde que a bandeira o cobrisse, estava salvo.

Nas ultimas execuções d'este genero, realisadas em Vizeu, no largo de Santa Christina, no tempo das luctas do absolutismo, aconteceu que um dos pacientes, graças a um convenio com o carrasco, cahiu com vida e foi coberto com a bandeira da Misericordia.

Uma mulher, porém, que ainda morreu ha poucos mezes, e que tinha a triste e original mania de assistir a todos os actos lugubres e a todas as scenas mais contristadoras, por um assomo de curiosidade feminina foi levantar uma ponta da bandeira. O desgraçado, que se fingia morto, imaginando que era algum dos que conhecia o convenio para a sua salvação, abriu os olhos, e tanto bastou para que a original mulher começasse a gritar que elle estava ainda vivo.

A populaça desenfreada cahiu sobre o infeliz e cevou as suas iras.

D'esta vez a bandeira não valeu.

—Do privilegio d'esse estandarte nasceu a locução de—bandeira da Misericordia,—d'um grandissimo emprego, sobretudo, na conversação familiar, servindo para designar toda a intervenção caritativa para a suspensão ou allivio d'uma pena ou d'um castigo.