Fazer a Monarquia...

Se dependesse de eu abrir a minha mão o proclamar-se, agora, a Monarquia, eu fechal-a-ia e pediria a toda a gente que ma apertasse bem, a fim de que, nesta ocasião, a Monarquia se não fizesse, pois que, actualmente, não nos convém. Ela há de vir no momento oportuno, porque não depende da vontade deste ou daquele, a evolução de acontecimentos políticos e sociais dessa natureza.

O apoio ao Sr. Sidónio Pais é lógico e legítimo, porque ele está cumprindo com os nossos deveres internacionais, com aqueles deveres a que nos ligam tratados{36} seculares, obra dos Reis e do Passado; e ainda porque o Sr. Sidónio Pais está restabelecendo a ordem dentro das condições que lhe são possíveis com a existência das instituições republicanas. Mas este apoio que nós lhe damos, e a que eu chamo meramente teórico e aplauditivo, não pode ir além, porque não poderá o Sr. Sidónio Pais nem ninguém, seja quem for! fazer esquecer aos monárquicos o que o regímen republicano tem feito em Portugal, e lhes tem feito a eles, como eu nunca poderei esquecer o que me fizeram os democráticos--em insultos, em agravos, em ofensas e agressões. Receios de uma consolidação republicana, só os terão os espíritos superficiais.

É preciso levar ao espírito dos monárquicos a convicção de que a Monarquia não pode e não deve vir somente pelos erros dos republicanos; deve vir e há-de vir, sim, pela força da sua própria constituição, porque o organismo da nacionalidade se integrou na forma monárquica e só a ela se adapta. A Monarquia há de vir porque é uma conclusão lógica dos{37} acontecimentos, e não está no poder dos demagógicos afasta-los, como não está no poder contrário apressa-los. Eu prefiro que ela venha depois de um grande período de paz, de ordem, de sossego e de progresso, dentro da República, a que venha sobre os ódios fomentados pelos democráticos. Eu prefiro que a Monarquia venha quando a situação social portuguesa esteja mais ou menos regulada, a que venha neste momento em que se encontram ainda vivas todas as questões difíceis que uma longa indisciplina impune agravou. Nós todos que amamos a nação devemos estimar e desejar que, dentro da forma republicana, se aplanem todas as dificuldades, de modo que a Monarquia possa receber o país no melhor estado possível.

Se devemos apoio ao Sr. Sidónio Pais, no problema da ordem pública, é porque não temos outro caminho a seguir, porque esse é o problema fundamental português, sem a resolução do qual todas as tentativas de resolver os outros são estéreis. Sobre o problema da ordem, sempre assim pensei.

Eu nunca tenho de me arrepender do{38} que a este respeito preguei noutros tempos, porque, por muitos que fossem os meus exageros e desvios, uma coisa nunca fiz: foi defender actos de desordem, de violência, ou de anarquia; coloquei-me sempre no ponto de vista de um homem com responsabilidades de governo. Acima de tudo, primeiro que tudo, a ordem--que se baseia na educação.

Eu não quero só instrução, não; o que quero é educação. Não ensinem o povo a ler, enquanto não estiver bem educado, porque se sabe ler, sem ser educado, começa a disparatar.

O povo que não está educado, se sabe ler, aprende a fazer ingredientes e máquinas explosivas, praticando todas as tolices possíveis e imagináveis, querendo imitar os lunáticos e fantasistas que aparecem pela Europa a propagar desordens e tolices. Quando o povo tiver bem profundo o sentimento da ordem, então que aprenda a ler à vontade. É preciso que o povo não deixe de ser criminoso somente por medo ao código ou à polícia. Cada vez que se funda uma escola, ergo as mãos ao{39} céu, porque nós só sabemos deseducar, só sabemos fomentar a indisciplina e a desordem, só sabemos ensinar ler o que não deve ser lido, e se não sabe compreender.

Nós temos partidos anarquistas, sindicalistas e socialistas que ignoram o que são essas doutrinas e que, com a sua falta de educação, ao lerem Kropotkine, um pobre príncipe exilado que está agora na Rússia a ver a prática dos seus dizeres, dão no roubo e no assassinato.

Eu assisti a alguns dos desvairamentos e aos excessos e aos roubos que ultimamente se deram nas ruas da cidade.