—Estás apaixonado?
—Crês, Sarah, que paixão desponte como um sorriso?{102}
—Quem te disse o meu nome?
—Li-o nos programmas.
—Ah! sim. Gostaste do meu canto?
—Não te ouvi.
—Como te agradei?
—Pertencendo a outro. A mulher sem dono custarà a topar com um amante. Rolarà uma eternidade como a pedra que não cria limo... Tenha um amante e dezenas surgirão...
—Como elle é experiente!
—Vejo todos os dias. Se quizeres arrebatar, deixa-te monopolisar por Gustavo. Ouve: agradei-me de ti porque, pelo braço delle, no teu longo manteau de sêdas e rendas, pareceste-me uma conquista difficil. Vejo dezenas de mulheres no Café-Concerto. Tyroleanas, que encantam com o canariar de suas vozes; francesas, que arrebatam com o savoir-dire as malicias mais leves; espanholas, que excitam com o sensualismo de seus sapateados; americanas, que lembram bugios nos saltos do cake-walk... Todas são-me indifferentes, por todas passo na certeza de cruzar com cocottes para todo o mundo... De começo estive tentado a emprehender uma ménage-à-trois com uma acrobata. Porque assim? A gymnasta era um corpo prohibido e vivia aferrolhado{103} à concupiscencia de seu proprio pae. Tive horror a essa monstruosidade e o desejo passou. Finalmente encontrei-me comtigo...