—Nada sei explicar-te, Frey Patricio, senão que corri os diccionarios dos meus estudos, e que todos elles me negaram o conhecimento do termo convencional. Valeram-me as amizades collegiaes, e um condiscipulo investigador, depois de algumas pesquisas fóra da convivencia dos collegas, soprou-me segredadamente: «Tico é um convite... E quando ouvires, responde taco...» Corei deante da revelação e maldei de tudo. O meu primeiro impulso foi abandonar o meu caminho habitual para me furtar às seducções de Almira...

—Que bello nome, e lendario!{134}

—Tive, porem, de ceder à contingencia dos factos. Não era possivel andar por outras ruas sem alongar o meu viatico, deante do que desisti da ideia e affrontei a tentação. Com o tempo fui cedendo. E, um bello dia, como se diz là fóra, escorreguei... «Tico!», disse-me ella, e eu lhe oppuz murmuradamente quasi: «Taco!» Em resposta, ouvi: «Amanhan!» Que noite, Frey Patricio! Se ha caldeiras para queimar almas, nós as experimentamos quando fazemos a espera de alguma coisa. Não durmi, confesso. E, para encurtar as razões, só acordei, effectivamente, quando, advertido por ella de que là iria chegar o seu homem, me vi escondido por detraz e entre pannos e pannos de saccos vasios. Desse esconderijo ouvi as suspeitas do esposo apparecido, suspeitas que cresceram e motivaram uma busca nos pannos que me occultavam. Que creatura perversa! Foi às bastonadas, meu Reverendo, que o bisonho animal me arrancou de debaixo das pilhas de saccos, às bastonadas, Frey Patricio...

—Ah!... ah!... ah!... ah!

—Não rias, Irmão!

—Não te zangues, Frei Thomasio. Não me posso conter... A tua historia é alegre... Ah!... ah!... ah!... ah!...{135}

—Nem sei como de maus tratos não me acabaram naquella hora furiosa... E quanto tempo me esbarrei inutilisado sobre o leito... nem me lembro mais!

—Pudéra!... Ah! ah! ah! ah!...

—Aliás, não foi tudo, pois que, tempos depois, restabelecido jà, e voltando aos cruzeiros dos meus estudos, a demonia me repetia: «Taco?»... e eu a repellia instinctivamente... «Nem tico, nem taco... nem là dentro do teu sacco...»

—É bôa, é bôa!... Ah!... ah!... ah!... ah!...