E tudo, tudo assim me é conduzido no espaço
Por innumeras intersecções de planos
Multiplos, livres, resvalantes.
É lá, no grande Espelho de fantasmas
Que ondula e se entregolfa todo o meu passado,
Se desmorona o meu presente,
E o meu futuro é já poeira…
. . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Deponho então as minhas limas,
As minhas tesouras, os meus godets de verniz,
Os polidores da minha sensação—
E solto meus olhos a enlouquecerem de Ar!
Oh! poder exaurir tudo quanto nêle se incrusta,
Varar a sua Beleza—sem suporte, emfim!—
Cantar o que êle revolve, e amolda, impregna,
Alastra e expande em vibrações:
Subtilisado, sucessivo—perpétuo ao Infinito!…
Que calótes suspensas entre ogivas de ruínas,
Que triangulos sólidos pelas naves partidos!
Que hélices atrás dum vôo vertical!
Que esferas graciosas sucedendo a uma bola de ténnis!—
Que loiras oscilações se ri a bôca da jogadora…
Que grinaldas vermelhas, que léques, se a dançarina russa,
Meia-nua, agita as mãos pintadas da Salomé
Num grande palco a Ouro!
—Que rendas outros bailados!
Ah! mas que inflexões de precipicio, estridentes, cegantes,
Que vertices brutais a divergir, a ranger,
Se facas de apache se entrecruzam
Altas madrugadas frias…
E pelas estações e cais de embarque,
Os grandes caixotes acumulados,
As malas, os fardos—pêle-mêle…
Tudo inserto em Ar,
Afeiçoado por êle, separado por êle
Em multiplos intersticios
Por onde eu sinto a minh'Alma a divagar!…
—Ó beleza futurista das mercadorias!
—Sarapilheira dos fardos,
Como eu quisera togar-me de Ti!
—Madeira dos caixotes,
Como eu anseara cravar os dentes em Ti!
E os pregos, as cordas, os aros…—
Mas, acima de tudo, como bailam faiscantes
A meus olhos audazes de beleza,
As inscrições de todos esses fardos—
Negras, vermelhas, azuis ou verdes—
Gritos de actual e Comercio & Industria
Em transito cosmopolita:
*FRAGIL! FRAGIL!*
*843—AG LISBON* *492—WR MADRID*
Ávido, em sucessão da nova Beleza atmosferica,
O meu olhar coleia sempre em frenesis de absorvê-la
Á minha volta. E a que mágicas, em verdade, tudo baldeado
Pelo grande fluido insidioso,
Se volve, de grotesco—célere,
Imponderável, esbelto, leviano…
—Olha as mesas… Eia! Eia!
Lá vão todas no Ar ás cabriolas,
Em séries instantaneas de quadrados
Ali—mas já, mais longe, em lozangos desviados…
E entregolfam-se as filas indestrinçavelmente,
E misturam-se ás mesas as insinuações berrantes
Das bancadas de veludo vermelho
Que, ladeando-o, correm todo o Café…
E, mais alto, em planos obliquos,
Simbolismos aereos de heraldicas ténues
Deslumbram os xadrezes dos fundos de palhinha
Das cadeiras que, estremunhadas em seu sôno horisontal,
Vá lá, se erguem tambem na sarabanda…