—E era meu coração, por ti quasi ferido, á duvida infantil que o emmudecera já, um velho piano adormecido que ninguem mais acordará.

EDUARDO GUIMARAENS.

*ATELIER*

NOVELA VERTÍGICA

POR
RAUL LEAL

*Atelier*

Em ondas de perfúme estranho as convulsivas exalações do Sonho iluminam vágamente o lár sombrio do artista que outra luz quasi não possue. A poucos pássos duma téla, profunda como a dor que ela evoca, o modelo por entre as vibrações duma alucinação sinistra todo vigorosamente contórce a alma, pelo semblante derramando a tortúra que a alma cava. Compreende a árte, no seu espirito sente a expressão do belo que todo o arrasta e anciósamente procurando ao artista transmitir a sublime inspiração da dôr, fórte, arrebatadora, na própria fisionomia a idialisa torturando o espirito que só assim, no semblante se concretisa… pela dôr! É gigantesca a sua personalidade que ao bélo tudo sacrifica, que só do bélo sábe vivér!…

Envolvido nas trevas convulsivas que o seu espirito concebe, Luar ardentemente transpira o delirio da morte, o espasmo eterno da Existencia que só ele póde sentir, e é nesse ambiente de horror vigorósamente concentrado nele, sintese suprema do Universo, é nesse ambiente, forte e sublime, que Luar, o modelo idial, procura eternamente arrastar a vida!… E o horror em que a sua alma se torna, ele domina e… vigorisa…!

Cresce nesse momento duma arte tragica que a matéria mal toca e em que só o espirito vibra em vibrações transcendentes que mal se concretisam pela sensação, cresce nesses instantes, apagados para a vida vulgar que o intimo das cousas não concebe, que o espiritualismo convulsivo da Existencia totalmente desconhece numa inconsciencia estranha, cresce na alma de Luar a loucura sublime de espirito que a tenebrosa, a imaterial vertigem do Universo, da Vida delirantemente acentua numa tragedia divina, que o transcendentalismo ardente da Ancia todo dolorosamente exprime pelo espasmódico histerismo que a Existencia forma, pelo arrebatamento convulsivo do Sonho Universal!… E nesses instantes tudo nele vibra, tudo que é nele o Espirito… Da sua concepção trágica se alimenta, alimentando-se, assim, da sua alma, da sua alma que se torna a alma da Existencia!