Passaram-se já alguns dias. O artista uma comoção profunda no seu espirito sofre, sob um novo aspecto olha o modelo, já quási lhe sente a alma… Encarna-se na tenebrosa escabrosidade do seu espírito trágico, sente-o mais belo, mais profundo, sublime…! Os transes variados em que bruscamente se lançára Luar naquela tarde tragica, essa variedade de transes que o modelo tão vigorosamente suportára, entontece-lhe a alma, já não o admira apenas, deseja-o e cheio de ardor, de ancia!…
Procura-o em toda a parte e, por fim, encontrando-o, repleto duma luxuria de espirito lhe diz: «Jámais te compreendi, Luar, como agora te compreendo. Talvez te não compreendesse ainda se logo tivesse cedido ao teu desejo. Mas o tempo tive de refletir, de sonhar em ti. A tua nobreza estranha que, após o meu pasmo, subitamente te acalmou os nervos, fundamente me impressionou, os contrastes da tua alma são maravilhosos e só a tua personalidade sublime, genial… a oscilações bruscas de caráter poderia resistir! Quero-te pois, a tua ancia é, hoje, a minha; sem os teus beijos profundos não posso passar, a minha carne na tua se entranhará para que na tua alma se espiritualise toda!…» E procura-lhe a boca. Luar suávemente o afasta, dizendo-lhe, apenas: «Refleti tambem, sonhei… Amanhã conhecerás o meu sonho.»
No dia seguinte, o artista recebe uma carta que os seguintes termos contém:
Meu querido amigo
Estranharás talvez que só agora te exponha o meu sonho derradeiro mas preciso de toda a minha alma e, só quando escrevo, aos borbulhões caudalosamente a broto de mim. Sem a pena, mantenho-me numa concentração trágica, mal mostro aos outros o meu espirito. É que o derramamento da alma no papel é ainda quási espiritual, a alma em excesso se não exteriorisa, impuramente se não materialisando.
Diz-me, se num drama, se numa tragédia vigorosa uma tempestade formidavel, num paroxismo fatal, se desencadeasse toda, atingindo, por fim, um limite definido que a banalisasse, acaso admirarias esse drama, essa tragedia?… Pois bem, o indefinido a que na arte nós aspiramos, essa ancia de idial que mais do que o idial para nós vale, essa ancia, esse desejo infinito e jámais satisfeito deve encher a nossa vida que a mais alta expressão se tornará assim, da arte pura!…
É vertiginosa a Existencia e espiritual, transcendente é a vertigem dela! Jámais a extensão conhece, no Espirito Puro que a extensão transcende, a vertigem se personalisa, se consubstancia, se acentua toda, não se espalha numa actividade mecanica, é a actividade espiritual, o dinamismo puro!… Está nisso a sua beleza, a sua propria existencia que, só assim, toda confundida num Todo, no Infinitesimal, na Mónada, que só assim se acentua toda, só assim se dá!… É sublime o convulsionismo espiritual e só ele é sublime! De que deriva a sua sublimidade? Da sua energia que só no Espirito, na Mónada se acentua toda!…
Ha pois, na vertigem convulsiva da Existencia uma expansão tenebrosa. Toda a actividade, a energia toda que a forma, no espaço e no tempo não se expande, mantem-se torturada no Infinitesimal. É infinita, eternamente tudo alcança, infinitesimalisa-se, espiritualisa-se pois…
Só no transcendental existe, só nele eternamente se debate!
Tem uma expansão, uma liberdade infinita que, como infinita, tudo atinge eternamente, como que eternamente se autodestruindo assim!… Se só no Transcendental existe, se é transcendente, se no mesmo ponto infinitesimal, na Mónada, eternamente se debate é que a si própria se contorce toda numa tortura infinita!… E não exprime a dôr e sobretudo a ancia o convulsionismo transcendente, torturado, contorcido da actividade pura, espiritual?… não é ela a expressão sublime da Vertigem?… Na dôr, na ancia devemos viver!