Illumina-se a egreja por dentro da chuva d'este dia,
E cada vela que se acende é mais chuva a bater na vidraça…
Alegra-me ouvir a chuva porque ella é o templo estar acceso,
E as vidraças da egreja vistas de fóra são o som da chuva ouvido por dentro…
O esplendôr do altar-mór é o eu não poder quasi vêr os montes
Atravez da chuva que é ouro tão solemne na toalha do altar…
Sôa o canto do côro, latino e vento a sacudir-me a vidraça
E sente-se chiar a agua no facto de haver côro…
A missa é um automovel que passa
Atravez dos fieis que se ajoelham em hoje ser um dia triste…
Subito vento sacode em esplendôr maior
A festa da cathedral e o ruido da chuva absorve tudo
Até só se ouvir a voz do padre agua perder-se ao longe
Com o som de rodas de automovel…
E apagam-se as luzes da egreja
Na chuva que cessa…
*III*
A Grande Esphynge do Egypto sonha por este papel dentro…
Escrevo—e ella apparece-me atravez da minha mão transparente
E ao canto do papel erguem-se as pyramides…
Escrevo—perturbo-me de vêr o bico da minha penna
Ser o perfil do rei Cheops…
De repente paro…
Escureceu tudo… Caio por um abysmo feito de tempo…
Estou soterrado sob as pyramides a escrever versos á luz clara d'este candieiro
E todo o Egypto me esmaga de alto atravez dos traços que faço com a penna…
Ouço a Esphynge rir por dentro
O som da minha penna a correr no papel…
Atravessa o eu não poder vel-a uma mão enorme,
Varre tudo para o canto do tecto que fica por detraz de mim,
E sobre o papel onde escrevo, entre elle e a penna que escreve
Jaz o cadaver do rei Cheops, olhando-me com olhos muito abertos,
E entre os nossos olhares que se cruzam corre o Nilo
E uma alegria de barcos embandeirados erra
Numa diagonal diffusa
Entre mim e o que eu penso…
Funeraes do rei Cheops em ouro velho e Mim!…