Atiro-a de encontro á minha infancia e ella
Atravessa o theatro todo que está aos meus pés
A brincar com um jockey amarello e um cão verde
E um cavallo azul que apparece por cima do muro
Do meu quintal… E a musica atira com bolas
Á minha infancia… E o muro do quintal é feito de gestos
De batuta e rotações confusas de cães verdes
E cavallos azues e jockeys amarellos…

Todo o theatro é um muro branco de musica
Por onde um cão verde corre atraz da minha saudade
Da minha infancia, cavallo azul com um jockey amarello…

E d'um lado para o outro, da direita para a esquerda,
D'onde ha arvores e entre os ramos ao pé da copa
Com orchestras a tocar musica,
Para onde ha filas de bolas na loja onde a comprei
E o homem da loja sorri entre as memorias da minha infancia…

E a musica cessa como um muro que desaba,
A bola rola pelo despenhadeiro dos meus sonhos interrompidos,
E do alto dum cavallo azul, o maestro, jockey amarello tornando-se preto,
Agradece, pousando a batuta em cima da fuga d'um muro,
E curva-se, sorrindo, com uma bola branca em cima da cabeça,
Bola branca que lhe desapparece pelas costas abaixo…

8 de Março de 1914.

FERNANDO PESSÔA.

Preço 30 centavos

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