Devemos pois operar a alma, de modo a abril-a á consciencia da sua interpenetração com as almas alheias, obtendo assim uma approximação concretizada do Homem-Completo, do Homem-Synthese da Humanidade.

Resultados d'esta operação:

(a) Em politica: Abolição total do conceito de democracia, conforme a Revolução Franceza, pelo qual dois homens correm mais que um homem só, o que é falso, porque um homem que vale por dois é que corre mais que um homem só! Um mais um não são mais do que um, emquanto um e um não formam aquelle Um a que se chama Dois. — Substituição, portanto, á Democracia, da Dictadura do Completo, do Homem que seja, em si-proprio, o maior numero de Outros; que seja, portanto, A Maioria. Encontra-se assim o Grande Sentido da Democracia, contrario em absoluto ao da actual, que, aliás, nunca existiu.

(b) Em arte: Abolição total do conceito de que cada individuo tem o direito ou o dever de exprimir o que sente. Só tem o direito ou o dever de exprimir o que sente, em arte, o individuo que sente por varios. Não confundir com “a expressão da Epocha”, que é buscada pelos individuos que nem sabem sentir por si-proprios. O que é preciso é o artista que sinta por um certo numero de Outros, todos differentes uns dos outros, uns do passado, outros do presente, outros do futuro. O artista cuja arte seja uma Synthese-Somma, e não uma Synthese-Subtracção dos outros de si, como a arte dos actuaes.

(c) Em philosophia: Abolição do conceito de verdade absoluta. Creação da Super-Philosophia. O philosopho passará a ser o interpretador de subjectivites entrecruzadas, sendo o maior philosopho o que maior numero de philosophias expontaneas alheias concentrar. Como tudo é subjectivo, cada opinião é verdadeira para cada homem: a maior verdade será a somma-synthese-interior do maior numero d'estas opiniões verdadeiras que se contradizem umas ás outras.

2. — Abolição do preconceito da individualidade. — É outra ficção theologica — a de que a alma de cada um é una e indivisivel. A sciencia ensina, ao contrario, que cada um de nós é um agrupamento de psychismos subsidiarios, uma synthese malfeita de almas cellulares. Para o auto-sentimento christão, o homem mais perfeito é o mais coherente comsigo proprio; para o homem de sciencia, o mais perfeito é o mais incoherente comsigo proprio,

Resultados:

a) Em politica: A abolição de toda a convicção que dure mais que um estado de espirito, o desapparecimento total de toda a fixidez de opiniões e de modos-de-ver; desapparecimento portanto de todas as instituições que se apoiem no facto de qualquer “opinião publica” poder durar mais de meia-hora. A solução, de um problema num dado momento historico será feita pela coordenação dictatorial (vide paragrapho anterior) dos impulsos do momento dos componentes humanos d'esse problema, que é uma cousa puramente subjectiva, é claro. Abolição total do passado e do futuro como elementos com que se conte, ou em que se pense, nas soluções politicas. Quebra inteira de todas as continuidades.

b) Em arte: Abolição do dogma da individualidade artistica. O maior artista será o que menos se definir, e o que escrever em mais generos com mais contradicções e dissimilhanças. Nenhum artista deverá ter só uma personalidade. Deverá ter varias, organisando cada uma por reunião concretizada de estados de alma similhantes, dissipando assim a ficção grosseira de que é uno e indivisivel.

c) Em philosophia: Abolição total da Verdade como conceito philosophico, mesmo relativo ou subjectivo. Reduccão da philosophia á arte de ter theorias interessantes sobre o “Universo”. O maior philosopho aquelle artista do pensamento, ou antes da “arte abstracta” (nome futuro da philosophia) que mais theorias coordenadas, não relacionadas entre si, tiver sobre a “Existencia”.