Dante, Goethe, Hugo e mil outros, cujos nomes posso aprender em qualquer catalogo de livreiro, não são sempre accessiveis á—simples intuição do bello, que é, ignita em todas as almas bem formadas[[4]].

Se as palavras abstruzo, extravagante, que se catrafilassem ao nome de cada escriptor fossem uma reprovação, grandes reputações teriam de mergulhar no esquecimento.

Por mim, gosto de ver transluzir através de um véo, como mysterioso e encantado, as imagens, as concepções, os formosos sonhos do poeta; e estou quasi inclinado a crer{15} que ha sobeja e singular estulticia na cabeça, que pretender a poesia judiciosa como um artigo de fundo, e transparente como um vidro de lampadario.

M. Magnin nas suas Coseries litteraires prova, bazeado em estudos psychologicos, que a natureza da poesia, no momento de sua manifestação, est d'étre folle ou, tout au moins, de le paraitre—como elle mesmo diz.

Racine, o proprio Racine—falla M. Magnin—antes de suas audaciosas sublimidades virem a ser, com o tempo, a linguagem da razão, não se salvou da denominação de extravagante, que os espiritos prosaicos lhe davam prodigamente, nem, tão pouco, dos acerbos remoques dos que se persuadiam oraculos do bom-senso e do bom-gosto.

Não sei se isto terá todo o cabimento no caso presente.

A tua opinião, Castello-Branco?

Eu, se podesse ter opinião, havia de aproveital-a para me chegar a convencer de que estou com geitos de escorregar nos lanzudos braços do somnifero deos.

Surprehendido, com o desfecho, fazes-me naturalmente as seguintes perguntas:

—Então isto acabou?! Mas que significa isto? Que novos mundos queres desencantar com as farfalhices do teu arrazoado? Que intenção é a tua, além dos prazeres do mexerico?...