—«Não se trata de Diogo Alves, o assassino celebrado pelas figuras de cera. É do santo Condestabre, D. Nuno Alvares Pereira. Conhece?—respondeu João muito a sério.
—«Ná, esse não sei quem é.
Isabella, com o lenço na bocca, ria perdidamente, emquanto o conselheiro, imperturbavel, fazia as suas despedidas.
—«Que estupido!—dizia depois para João.
—«Não é! Ignorante, faccioso e maledicente sim, mas de bruto não tem nada.
—«O que a Maria Helena se demora! São capazes de faltar ao sermão. Vamos vêr se os encontrâmos?
—«Vamos lá.
Tornaram a atravessar o arrayal. A um lado, sobre uns penhascos, toda uma familia de padre acampára comendo o farnel. João, que era conhecido, foi chamado pelo padre Miguel, que esbrugava uma perna de gallinha com os seus rijos dentes de velho sadio.—Que não acceitava, mas agradecia, respondeu João tirando o chapéo delicadamente.
—«Homem, não seja esquisito, nas romarias não se olha a etiquetas. A sr.ᵃ sua prima talvez goste do nosso vinhito branco...
Isabella pensou, pela primeira vez, que era na verdade temerario affrontar assim os preconceitos portugueses e provincianos principalmente, apresentando-se n’uma festa tão publica com um rapaz que lhe não era familia. Na sua altiva honestidade de rapariga educada para se guardar a si mesma e responsabilisar-se pelos proprios actos, não comprehendêra o que o seu procedimento podia ter de inconveniente aos olhos de toda essa gente, habituada a tudo fazerem menos desprezar as linguas do mundo... Fizeram-na córar mais do que o proprio sol, os olhares curiosos das mulheres que arranchavam com o padre Miguel e melhor a distinguiam da Candida, por quem o velhote a tomou. Lembrou-se do risinho do Maximiano ao encontrá-los, e essa lembrança feriu-a como um insulto. A garganta apertou-se-lhe n’uma crise de choro, vencida com esforço.