—«Ih!... Essa agora foi d’arromba; o que vale é estarmos ao ar livre, oh Visconde!—commentou o D. Manuel Pereira.
—«Não acreditas? Pois olha que em Hespanha ha trezentos duques, fóra o resto. Palavra d’honra, oh menino!...
Quanto mais crúa fosse a mentira, com mais segurança elle fallava, endireitando-se, estendendo a mão em juramento, torcendo o bigode encerado.
Decididamente, mademoiselle Hortense estava com a sua gente. Era impagavel aquelle Visconde. Ninguem como elle para marcar um cotillon e saber fallar a uma grande dame ou a uma jeune fille na ultima corrida de Longchamp, na cantora em voga, nos escandalos de foyer, no couplet mais gamin. Tinha como ninguem o savoir vivre d’un vrai azuré. Não era possivel sem elle fazer-se uma festa distinguée—explicava ao Vilhegas, um pouco deslocado entre aquella fina flôr da elegancia lisboeta.
A Viscondessa ia-os recebendo a todos com aquella amabilidade que chega a ser natural á força de usada nas pessôas de que a posição social fez escravos. Ouvia o juiz gabar o peixe assado que mandára, uma especialidade lá da casa—ella diria depois se a mulher não tinha um optimo paladar de cosinheira...
Respondia gentilmente a um e a outro, procurava para cada qual a phrase mais propria a causar-lhe a satisfação da vaidade, sabendo de ante-mão o que interessava a toda essa gente para quem o marido lhe pedia que fosse amavel.
Isabella acompanhava-a como de familia e ajudava-a com um interesse que não estava nos seus habitos e a affastava de João, que, junto do dr. Ramalho e outros, ouvia os commentarios á romaria da vespera.
—«Creia você, dr. Pinto, que o homem não está nada bem; deram-lhe a matar com um marmeleiro que lhe circundou a cabeça; não affirmo que se salve.
—«Oh diabo, que lá se vae um quarenta maior!...
—«Dois, porque o Manuel Duarte, da Povoa, é que bateu,—veiu dizer o padre Mathias com um arsinho picante de troça.