—«O que quer você dizer com isso, padre Mathias?

—«Depois lhe explicarei. Vá segurando o juiz, que eu logo fallo com o da Povoa. O Ramalho não percebe nada de politica. Perder um quarenta maior sem mais nem menos... é parvoeira... Eu vou fallar ao Vilhegas. Não percebe a tramoia?

—«Eu não, por emquanto ainda não attingi o que você quer.

—«Não me posso agora explicar. Só duas palavras: supponha que o homem não morre e o juiz manda fazer novo exame e esse exame é feito por medico nosso, que do processo de jury faça um processo criminal de galão branco, em que o réo fica á mercê do juiz...—atabalhoou confidencialmente.

—«Sim senhor, sim senhor, você vale um thesouro; não ha de ser um triste abbade de aldeia—aqui é que eu o quero!—o velhote que trate das contas e do breviario.

Deixando radiante o incansavel galopim, encaminhou-se para o juiz, fingindo naturalidade, fallando com um e com outro, até que o poude abordar. O padre chamou o Vilhegas e arrastou-o para longe da criadagem, que se azafamava nos ultimos detalhes da meza.

—«Está por isto ou não está?—ouviram-lhe ainda dizer.

—«Se o conselheiro fizer empenho—respondeu a meia voz o medico.

—«Nada que não ha de fazer, é uma cartada de mestre. Se é! De uma assentada apanhamos os quarenta em que elles teem tido a maioria. É um rombo d’alto lá com elle. Se o Manuel Duarte vae comnosco, temos mais o pae e os dois cunhados marchantes... O Cabral, doente... É como lhe digo, quando mal se percatam temos o concelho na mão. Uns parvalhões que ainda fazem politica com lealdade...—e ria surdamente, satisfeito de si.—E você? vae ou não vae adeante com o negocio do casorio? Olhe que o pae gosta de você, homem, basculeja-me até de que o prefere para genro antes do que a esses bonifrates de Lisboa.