Desde manhã que as meninas Souzas, em saias de baixo e papelotes, mascaradas de cold cream para amaciar a pelle, o collete apertado para adelgaçar a cinta, se afadigavam nos ultimos preparativos, fazendo uma préga mais funda, cosendo plissés, lustrando os sapatos e lavando as luvas, mandando a criada percorrer as lojas, pondo emfim a casa n’uma dobadoira para que os seus vestidos fizessem morder de inveja as amigas Cunhas e as delambidas das Costas mais as do recebedor e as do escrivão... Umas e outras não pensavam n’outra coisa e contavam as horas com a solicitude de quem vae contando os momentos que os separa da suprema felicidade.

A Viscondessa, innocente causa de tantos cuidados e despezas, desde as oito horas que entrara na sala e conversava com os convidados que já a esperavam perfilados em trajes de gala.

Mal terminara o jantar subira a mudar de vestido e descera logo por saber o costume da velha-guarda, as Rebellas com as suas saias embaloadas de sedinha antiga, a irmã do velho abbade, o Domingos e outros, que ainda pertenciam aos bons tempos honestos em que os saraus terminavam com escandalo depois da meia noite.

Isabella, desejosa de ajudar a amiga e tambem porque a espicaçasse a curiosidade de ver o primeiro desfilar solemne de toda aquella gente que já conhecia, apressou-se a descer á sala de recepção.

O seu rosto delicado de pequena loira estava como nunca de um encanto espiritual, que enlevava. A sombra de melancolia que lhe enodoava a alma desde aquelle passeio á romaria, realçava-lhe a formosura, tornando-a mais feminil e humana.

Os olhos tinham menos vivacidade maliciosa, o sorriso franzia-se n’um quasi preguear de quem quer com elle encobrir lagrimas, os gestos eram mais lentos e as faces empallidecidas já não semelhavam um rosicler de dia álacre.

Ao lado da Viscondessa, toda de preto, o decote a envolver-lhe o busto em soberbas rendas hespanholas, afogada e coroada de brilhantes, a cauda a faze-la mais alta; Bella, simplesmente de branco, um ligeiro vestido de crepe da China, transparente e leve como a espuma, com a saia redonda cahindo naturalmente, sem enfeites que a arrebicassem, sobre o pé calçado de meias de seda preta e sapato sem salto, sem mais joias alem de um collar de perolas que o tio lhe escolhera uma a uma com meticulosidade de conhecedor e capricho de milionario; ellas harmonisavam-se bem, apezar do contraste, como duas flores criadas com luxuoso esmero na mesma atmosphera de elegancia e riqueza.

Uma entrava apenas na vida, sentia-lhe o primeiro golpe e curvava a cabeça com resignação apezar do seu espirito naturalmente revoltado, porque a sua dôr era d’aquellas que amachucam almas delicadas e quebrantam a vontade dos caracteres impollutos. A outra, levantava-a já com orgulho, como se os desgostos fossem cadinho onde a alma se lhe purificasse e enrijasse para supportar a existencia.

Iam chegando os convidados e eram já tantos que o salão de entrada, uma linda miniatura da sala dos espelhos de Queluz, tornava-se pequeno para tanta gente.

—«Vae-se tornando impossivel respirar aqui—disse a Viscondessa á amiga.—Vae lá para dentro, minha filha, bem basta que soffra eu, já que não tenho outro remedio.