No intimo da sua alma leviana havia um fundo de instinctiva justiça que a fazia prodiga com os miseraveis e sem maledicencia que ennodoasse as outras, como quem se quer desculpar com o exemplo alheio.

Se não era honesta e não dava grande valor a essa virtude que só lhe parecia bôa para pobres usarem, tambem não era hypocrita; e chegava a ser ingenua á força de impudencia na phylosophia adquirida no longo convivio de pessôas que se habituara a julgar o typo commum.

Pelo braço do D. Manuel Pereira affastara-se para a sala de bilhar onde, a um canto, a Hortensia languidamente recostada n’uma commoda mas feia cadeira inglesa, conversava com o Vilhegas, em requebros, retorcimentos de pescoço e gritinhos de cãosito de regaço. Ao fundo da sala, a meia voz, o conselheiro conferenciava com o juiz.

—«Então o que lhe dizia eu, D. Manuel? Onde menos gente houvesse é que era mais certo encontrar os noivos—dizia a baroneza alegremente.

—«Procuravam-nos?—perguntou M.ᵉˡˡᵉ Hortense voltando meio corpo, como manequim de uma só peça.

—«Não, precisamente, mas procuravamos alguem que não estando a jogar podesse dizer alguma coisa que distrahisse.

—«Viemos bater a má porta; estes senhores estavam tão absorvidos na sua felicidade que chega a ser um crime distrahi-los.

—«Pelo contrario, D. Manuel, dão-nos muito prazer. Estavamos fazendo un petit bout de causerie intime, mas temos para isso tanto tempo!

—«Faço ideia! Vão-lhes parecer seculos estes mêses. Quando casam?