Adaptando provisoriamente para hospital e para escolas duas velhas casas pertenças da familia, esperava em breve completar esses beneficios criando officinas, instituindo a créche, juntando ao asylo-escola para crianças, um asylo para velhos, mas governado de maneira a não fazer dos desditosos que se obstinam em viver uma especie de revoltados contra a propria beneficencia que os força á prisão.
Entretanto ia João pondo em execução o seu plano de um bairro operario, com casas simples mas não desprovidas do encanto que só a arte pode dar, bem saneadas e arejadas, com janellas e portas bem largas e com seu jardinsinho á frente e pateo interior onde se faziam as construcções proprias para acomodação dos animaes, que em toda a população rural fazem parte integrante e importantissima da familia.
João, todo radical e violento, como o avô materno que não transigira nunca com opiniões e preconceitos alheios, queria dispensar o concurso de toda essa gente da villa, que de sobra conhecia, e entender-se só com aquelles que devia melhorar. Mas n’isso não concordavam Isabella nem o abbade e o próprio Ramalho, antes mais habil lhes parecia utilisar elementos existentes para a organisação immediata de uma escola onde rapazes e raparigas aprendessem officios e misteres que os habilitassem a ganhar a vida no futuro. Para isso foram convidadas as pobres Sebastianas, que serviriam como professoras de bordados e roupa branca, o que fez com que a Aurora Costa, invocando a amisade da Pillar, viesse pedir tambem um emprego—pois o pae ganhava pouco e a familia era muita. Sabia talhar alguma coisa, se bem que nunca tivesse sido ensinada, e fazia flores e bordados muito especiaes em cascas e aparas...
Isabella teve um sorriso de amargurada censura a tão pouco prática educação e disse-lhe—que sim, que a utilisaria como ajudante de uma professora de córte que mandára procurar em Lisboa, e que, mais tarde, se essa senhora não quizesse ficar ou ensinasse outra qualquer coisa, a Aurora, em sabendo bem, tomaria o seu logar.
—Mas—lembrava-lhe ainda—precisava d’uma senhora que a auxiliasse no trabalho de escripturação e contas que taes emprehendimentos necessitam, um trabalho material que não requer grandes conhecimentos e sim escrupulosa meticulosidade e uma lettra rasoavel. Se quizesse, podia ficar já n’esse logar.
A Aurora córou e confessou, vexada, que escrevia muito mal e que de contas sabia pouco; piano é que tocava alguma coisinha, se fosse preciso ensinar...
—Não,—respondeu-lhe a outra tambem vexada porque, naturalmente bondosa, nunca fazia sentir a ninguem a sua inferioridade—piano não precisava, porque pretendiam educar para o trabalho e para a vida, e o piano, como qualquer outro instrumento ou arte, só se queria cultivado em pessoas de rarissima vocação e ensinado por professores bem habilitados, aliás era uma inutilidade. Mas experimentasse ella estudar um pouco de contas e português e depois com a prática faria o resto.
O abbade andava radiante: aquillo sim, aquillo é que era a verdadeira religião, que fervorosamente praticava. Mal de manhã dizia a missa conventual, abalava para os campos a farejar desgraça, que podessem minorar. E doente que encontrasse ou criancita a mandar para a escola, ou mulher a reclamar cuidados de sabia hygiene, era logo apontado na carteira, com o alvoroço de quem aponta rendoso negocio a aproveitar e que não deve esquecer.
Práticas que fazia aos domingos todas versavam sobre a conveniencia de se instruirem e trabalharem, que era assim que Deus queria o seu povo.—«Casa onde não ha pão todos ralham e ninguem tem razão—dizia na sua phrase chã, simples como a sua alma e facil de comprehender por todos os humildes que lhe frequentavam a igreja—ora vocês trabalhando e tendo saude têm que comer. Aos domingos, se se entretiverem a estudar um pouco, a lerem bons livros para não ficarem uns brutos como os animaes que os servem, se cultivarem as suas flores no quinxoso ou nos vasos da janella, que isso não é peccado nenhum, desamparam as tabernas e não se mettem em rixas e bulhas que não dão bom pão. Olhem vocês que o que Deus quer é a alegria e a felicidade de nós todos; deixai dizer quem préga o contrario...
Na sua santa inconsciencia, que bem preoccupava as irmãs, deixava que o cura se assenhoreasse a pouco e pouco das obrigações da parochia que traziam bem estar e lucro, que as outras as ia desempenhando sempre o velho. Era agora elle, o padre Mathias, quem dizia a missa das onze e esperava na sachristia a passagem das senhoras que se habituavam a encontra-lo alli para tratarem dos negocios espirituaes em que as entretinha. Era elle que as confessava e lhes insuflára o gosto pela devoção do mez de Maria, tão habilmente escolhida para esse dulcido mez de maio em que as rosas desabrocham perfumando a atmosphera, e os corações moços deliquiescem em ansias de consoladora ternura... Era quem lhes fazia as novenas e lhes levava as filhas á primeira communhão, em procissional theoria; era o indispensavel em tudo.