—«Para fallar com franqueza, lembra-me ás vezes que posso morrer e isso faz-me passar um calafrio pela espinha. Não me importaria morrer se fôsse infeliz, mas sinto-me tão amada, que na verdade seria estupida a morte. Demais tendo tanto desejo de ter filhos, que já me ia tardando esta gravidez, que me deixou mais de um anno na espectativa... Nem eu queria dizer o desgosto que tinha para não torturar o João!... Mas agora estou socegada; anima-me o pensamento de que ha tantas mulheres que têm filhos sem perigo, que é impossivel que a mim me não aconteça o mesmo. Quando vejo os pastores trazerem á tarde para casa os cabritinhos e cordeiritos, que as mães tiveram no campo entregues a si mesmas, sem trabalhos nem perigos... penso que nós não devemos ser menos protegidas pela sabia natureza. É uma coisa tão natural esta!...
—«Pois é, e tu has de ser muito feliz, verás. Dizem os medicos que a vida sedentaria e a má educação physica da mulher é que trazem todos os perigos á mãe dos nossos dias.
—«É verdade. Todos os tratadistas o dizem.
—«Já vês; então não ha perigo para ti, que tiveste uma educação physica bem dirigida e ainda hoje tens uma vida activa.
—«No fim de contas, é uma questão de sorte. Quantos animaes soffrem e morrem tambem!... No entanto, não vale a pena pensar n’isso, é uma pequena percentagem.
—«Ora, tu has de ser feliz, tenho a certeza. Quem me dera já ver o focinhito tontinho do nosso bébé! Eu que gosto tanto de crianças, como hei de amar esse que é nosso!... Acho-lhes tanta graça quando são pequeninos e fecham as mãosinhas em murro, e riem, e fazem caretas!...
—«Que estupida coisa não teres filhos! E tantas mulheres que os não desejam, que os aborrecem até. Vem-lhes como castigo.
—«Pobres d’elles!
—«A proposito, que interessante ha-de ser o desespero de m.ᵉˡˡᵉ Hortense quando perder a sua elegancia de fada!
—«Faço ideia!