—«E o nosso abbade? Devia ser uma scena desoladora a da sahida da residencia!
—«Se te parece ha quarenta annos que alli viviam! Já a tinham como propriedade sua. A tia Joanna portou-se com heroicidade. O velho chorava de dôr e de alegria, levado em triumpho por toda aquella bôa gente do povo que chorava e gritava. As mulheres faziam uma bulha!... Se houvesse alli quem quizesse dirigi-las, parece-me que o cura havia de passar um mau bocado.
—«Já lá vi duas revoltas d’essas, interessantissimas, uma por causa do fisco, outra d’uns maninhos que queriam tirar ao povo,—sorriu a Viscondessa.
—«Mas o nosso bom abbade não queria violencias; coitado, elle que é todo paz!... A irmã mais nova é que esteve com os sentidos perdidos immenso tempo.
—«Parece impossivel como ha coragem para fazer uma intriga assim tão infame.
—«Pois ha, e lá vive satisfeito e poderoso o sr. abbade que tudo manda. A tal festa ao Coração de Jesus foi um verdadeiro desafio, as crianças da communhão todas de branco e fita azul á cinta, coroadas de rosas como senhoras de Lourdes, os missionarios gritando improperios... As damas de fitinha escarlate no peito... uma verdadeira revista de forças.
—«E o povo?
—«Deixou passar, indifferente e desinteressado.
—«Ah! este povo português que parece já não ter sangue que lhe suba ás faces com vergonha... E ainda vocês sonham com o futuro! Com este povo que só parece já viver pelo unico interesse material de existir e comer!...
—«Falta-lhe educação. Não desanimemos, que talvez alguma coisa se faça ainda. O que me consola, n’aquelle caso do da Fradosa, é que o Pedro ha de vingar a morte do tio e secundar a nossa obra... Por emquanto é segredo entre nós. É um bello caracter.